Zines! Contemporâneos e geniais

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Símbolo da autonomia em publicar, zines estão bem vivos e voam longe

zines

 

Preparei uma aula esses dias para o CLIPE – Curso Livre de Preparação de Escritor na Casa das Rosas – em dado momento da aula, o exercício criativo era fazer um fanzine. Como é muito divertido, resolvi fazer um post a respeito. Quem sabe vc tb não se anima?

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Origens nebulosas do zine: bisnetos da panfletagem e avôs das fanfics

Um das histórias das origens do fanzine remonta a quem lia a Amazing Stories, revista icônica da ficção científica, iniciada em 1926 por Hugo Gernsback. Um leitor de somente 14 anos, Jerry Siegel, em 1929, criou a Cosmic Stories, considerada um dos primeiros zines.

Daí o termo “fanzine” nasceria de uma simplificação de fanatic magazine – revista produzida por fãs, quem reaproveitavam ideias e personagens das revistas que idolatravam/curtiam para produzir as próprias. Semelhante às recentes fanfics, nascidas na web nos anos de 1990, trazendo criações ficcionais de obras que adoram, por exemplo, dando sequências as histórias do Harry Potter, Star Trek ou Cavaleiros do Zoodíaco, pra citar algumas amadas. No Brasil, zine e fanzine são sinônimos, embora haja gente que torça o nariz para esta afirmação.

Olha o nascimento do Superman aí! Detalhe: começou no lado sombrio da força. Retirado de https://en.wikipedia.org/wiki/Zine

(Em tempo: essas parcerias entre fãs e criadorxs originais são muito frutíferas – por exemplo, aponta-se que uma das primeiras versões do Superman, à época um vilão, aparece em 1933 na 3ª edição do fanzine Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization, de Jerry Siegel, agora maior de idade, com Joe Shuster).

O zine possui geralmente uma inspiração popular e uma vontade de dialogar diferente da literatura presumida pelo livro – uma ênfase na rebeldia e no protesto. Assim, não é possível esquecer um outro parentesco do zine: o panfleto político.

Para ilustrar a força deste veículo também perene e com jeitão de improvisado, cito uma história famosa dos panfletos políticos, a do inglês John Wilkes. Em 1762, ao ver sua facção no parlamento afastada, indignado lançou um panfleto semanal, The Norton Briton:

“Com o único propósito de atacar o rei George III e o primeiro-ministro por ele nomeado, o incompetente lorde Blute, uma de suas inovações foi dar o nome dos ministros que estava atacando, em vez de usar as costumeiras inicias seguidas de um traço (lorde B__). Em um ano, Wilkes foi processado por calúnia impatriótica quando, no número 45 de seu panfleto, insinuou que o rei George havia mentido num discurso no parlamento. (…) O número “45” tornou-se um grafite comum, orgulhosamente exibido em portas e paredes, e “Wilkes e Liberdade” virou um grito de convocação para uma série de causas correlatas. (…) Ele reuniu duas arenas que haviam sido separadas: o parlamento e a rua”

– retirado de Protesto, livro de James M. Jasper, Ed. Zahar, trad. Carlos Alberto Medeiros, 2016.

Panfletos políticos eram/são comuns em greves e movimentos de operários, mas estiveram/estão presentes durante todo o século XX e XXI, em movimentos de contracultura, a favor da liberalização sexual e de drogas, manifestações contrárias ao racismo, feminismo, guerras e outras.

Assim, essa mistura colocada no caldeirão da história dá origem ao zine como se conhece hoje. Zines estiveram presentes na ascensão do movimento punk (inclusive há a discussão se o termo punk não nasce de um fanzine). Dialogam e dialogaram com vertentes mais pesadas do rock e cenário undergroud. Foram e são importantes na discussão sobre raça, gênero, feminismo e teoria queer.

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Zine brasileiro – entre punks, cordelistas, poetas e fãs de mangá

O zine aqui se abre a muitos formatos e influências. Na entrevista que falam do livro Meninos em fúria, Clemente Nascimento e Marcelo Rubens Paiva (Ed. Alfaguara) apontam a importância do zine no movimento punk aqui.

“Gilete Press. Oi. Novamente suas mãos seguram este pequeno pedaço de papel com pedaços de mim e de muitas outras pessoas queridas.” De Luiz Fafau, Goiânia, 1986. Retirado de http://maishistoria.com.br/gilete-press-geracao-mimeografo

Na poesia, impossível esquecer toda a Geração Mimeógrafo que foi um marco na poesia contemporânea. Se você pesquisar um pouco alguns zines brasileiros atuais, vai encontrar o cordel como inspiração estética – cito o sergipano Cordel Anarquista.

São ainda muito ligados à ficção científica e quadrinhos. Você encontra hoje ainda zines inspirados em mangás.

Leia o post Zines, papel para um idioma pessoal – relato sobre a oficina de fanzine as línguas e os idiomas das mulheres durante o festival [eu sou poeta]

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Reprodutível, efêmero, independente

Faça você mesmo, não é? Quem faz um fanzine passa por todas as etapas do nascimento de uma publicação: concepção, edição, revisão, diagramação, impressão e distribuição. Praticamente uma escola sobre o processo editorial.

Zines possuem uma intenção de efemeridade e também fogem à institucionalidade. Assim não precisam de um acabamento para serem duráveis, como capa e acabamento costurado. Também raramente possuem o registro de ISBN ou ISSN. Muitos ainda nem apresentam número de páginas – seria um princípio anarquista? Mas não se engane: alguns zines famosos tiveram quase 1.000 exemplares de tiragem e são colecionados até hoje.

Ao contrário do livro, a matriz é pensada para ser reprodutível facilmente em processos simples como o antigo mimeógrafo, no xerox, etc. Você faz um zine para alguém também o reproduzir. Semelhante ao pensamento copyleft na internet atual.

Muitos abusam de técnicas mistas: uso simultâneo de palavra, imagem, desenho, colagem, sobreposições. Geralmente, possui um acabamento barato e simples de ser feito em dobra, grampo ou dobraduras.

Nem sempre declara a autoria. Um zine pode ter uma autoria coletiva, ser anônimo, ser assinado ainda por pseudônimo, etc. Os motivos são vários. No caso de pseudônimos, pode ser apenas para fazer graça. Não assinar também protege da fama de praticar “literatura menor”. Ainda não se determina a autoria por questões políticas, que enfatizem a coletividade ou driblem censura em determinado momento histórico.

Como um zine circula? Bom, quase nunca existe a intenção de lucro. Assim, a distribuição pode ser feita por simples troca – feira de fanzines e eventos de publicações independentes – ou a custo baixo em praças públicas, shows, universidades. Os zines mais famosos também são distribuídos por correios.

Leia o post Plaquetes! ideias para fazer publicações independentes

 

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Se se interessou pelo assunto, aqui vão mais algumas referências

Vídeo útil para você não se embananar quando montar o teu: Aprendendo a fazer zines de byrdtrojan.

Wiki sobre “zines”: http://zinewiki.com/Zine (em inglês).

Sobre movimento punk e fanzines, dê uma olhada num número do fanzine Maximum Rocknroll – foi um muito conhecido (em inglês).

Este artigo comenta o Fanzine punk como mídia alternativa de Regina Rossetti e David Santoro Junior, Revista Alterjor, (ECA-USP), 2014.

Sobre exemplos de hoje, achei este vídeo com fanzines autogestionados feito por mulhers Sisterhood, La Malvada e Inquire Project de 2015 http://www.rtve.es/alacarta/videos/procesadora/procesadora-11-fanzines-hechos-activismo/3205919 (em espanhol).

Para ler, encontrei ainda o Coletivo FirMINAS, que publicou em 2015 e em 2014 vários textos clássicos feministas, discutindo, inclusive, a questão do acesso às ideias destas pensadoras. Um deles é o zine “Seu silêncio não vai te proteger!” com dois textos da Audre Lorde. As FirMINAS são de São Luis (MA).

Se estiver em São Paulo, não deixe de visitar a Ugra Press ali na Augusta.

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