Valentim

 

– Se você é um deus, porque vive aqui no boteco?

Valentina suspira fundo. A pergunta também uma dúvida dela. Tudo bem que não precisava perguntar assim, né? Jogar na cara, sem nenhum glamour. Que deprê.

Enfim, é o que dá conversar com a primeira pessoa que vê na frente. Aquela ali tinha ido parar no boteco por conta da mesma história violenta com um ex. Valetina não tinha certeza, mas podia ser bem isso, essas histórias comuns que davam nos nervos. Chegou, pediu fogo, foram fumar na calçada, bateram um papo. Agora estavam naquilo: se você é um deus, porque vive aqui no boteco?

Valentina também é paciente, embora não tenha muita piedade como compete a deusa pagã. Daí responde em tom de desabafo:

– Estamos numa era em que imortais assim como eu… bem, não fazem sentido, sabe?

– Ué, tem maré assim também pra deuses?

– Tem sim. Há maré ruim pra toda gente. – Valentina começa fazer uma voz grave de profecia – há marés ruins em que todas as pessoas são tragadas…

Valentina logo percebe que o tom profético lhe caia bem e segue:

– … e estamos na crista desta maré de coisas ruins! E estarei aqui quando a coisa rebentar.

– Que horror! Bom, por aqui dá pra sempre ficar pior. É igual esse país. Não precisa ser um deus pra dizer isso, né?

A outra pessoa, meio bêbada, segue perguntando:

– E que tipo de deus é você? Dos grandes é que não tá com cara de ser.

– Bom, até tento melhorar. Mas os dias são de deuses da guerra.

– Tipo esses deuses com relâmpagos e martelos?

– Sim, mais ou menos isso.

– E você?

– Sou a deusa das ilusões.

– Sério?

– Sim, posso me transformar em qualquer pessoa, por exemplo.

– Não acredito! – faz cara de incredulidade.

Valentina não demora e começa a se divertir. Logo sai do corpo franzino que habitava – um homem baixinho, cabelos lisos e olhos um pouco puxados – para se tornar a própria interlocutora. Primeiro altera os cabelos, depois as bochechas, peitos, quadris, as roupas começam a ficar frouxas naquele corpo (Valentina podia dar um jeito nas roupas, claro, mas está com preguiça, é só mais uma demonstração de fim de noite).

Você aí que nos lê deve estar pensando: que falta de imaginação! Porque logo não se transformava no Mark Zuckerberg? No Thor? Valentina, no fundo, sabe que o maior efeito sempre é o do espelho. Imitar a outra pessoa: piram!

Com um olhar de enfado pra esconder a falta de modéstia, completamente outra, Valentina fita a mulher.

Um grito! Mas a interlocutora logo engasga com a cerveja e, na ânsia de desengasgar, acaba cuspindo grande parte do líquido na mão de Valentina. Na sequência, tenta se desculpar com gestos atabalhoados e, sem querer, chuta o pé da mesa. E, como toda mesa de boteco, é bamba. Os copinhos americanos cheios não resistem às leis da gravidade, tombam e lavam Valentina com o líquido dourado. Diante da ofensa, Valentina retorna à aparência anterior.

– Puta, desculpa. É que… nunca tinha visto isso… na vida!

– Com certeza não.

– E como você não faz sucesso?

– Deuses não são celebridades pra fazer sucesso, minha filha. – Valentina abana a mão molhada e repara na calça encharcada com o pequeno banho de espuma amarga. Inferno. Inutilmente, os dois gastam um pacotinho de guardanapos para conter a inundação. A bêbada faz comentário de consultora:

– Nada a ver. Os deuses tão super com cara de celebridade.

Valentina silencia. Antes fosse. Assim alguém prestaria um mínimo de atenção. A interlocutora apresenta um bombardeio de perguntas. Valentina cansa-se e ignora. Faz a deusa egípcia. Não faz sentido dar importância àquilo tudo, o bar, a bêbada.

Valentina queria é morrer. O que é bem difícil pra qualquer imortal.

A vida não tá fácil pra ninguém.

 

– – –

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Este conto era parte do romance que escrevo. Um campo para testar uma personagem. Que se transformou noutra coisa. Mas o continho ficou. Compartilhei para vc se divertir.

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