sobre a palavra: superação

O tema hoje é como fazer as palavras significarem o que queremos que signifiquem. Assim como a perda de tempo que este ato apresenta. É sempre bom fazer os deuses rirem de teus planos.

 

Primavera Literária, 2012: Eduardo Sterzi, Jeanne Callegari, Paulo Fehlauer e Flávio Ricardo Vassoler (e eu-loira viajando pra algum planeta estranho).

 

[1] A jornada de um poema e seu significado

Houve tempos que escrevi bem poucos poemas. Lembrei de um agora, escrito nestes períodos de seca, que se chama Visibilidade total.

Digressão 1. Escrevi o rascunho em dezembro de 2012, pós-Primavera Literária na Praça Roosevelt. Esses encontros deixam a gente de cabeça cheia (a foto acima é ótima). Finalizei o texto para enviar à Revista Metáfora.

Digressão 2. Periódico que o inconsciente teima em chamar de “Revista Metamorfose”, pois esta foi editada pela Andréa Catrópa e o Edu Lacerda nos idos de 2005 (confere?).

A Metamorfose, revista literária do curso de Letras da USP, definiu algo importante na minha vida: meu pertencimento à faculdade de Letras. Parece completamente idiota mas, até então, sempre me sentia uma fugitiva do Direito – era advogada, chegava de roupa social na aula, sem conseguir entender, do alto de meus trajes tão sóbrios e cabeça tão ébria, como iria me encaixar naquele prédio estranho com pessoas sempre com pressa, pouco assunto e nenhuma poesia. Imaginava que a FFLCH seria um woodstock, mas só tinha festas sem beijo na boca e rodinhas discutindo a crítica da crítica da crítica.

A publicação na Metamorfose operou o que prometia: lendo ali meus poemas sob o título “Prata da casa” e acompanhada do Paulo Ferraz na próxima página, me senti em casa. Finalmente! Adorei o Edu e a Andréia, eram ótimos, amorosos. Ali a ponte sob o rio da minha aldeia ficou pronta e podia transitar como queria.

Bem, feita a digressão 2, estamos falando do poema Visibilidade total publicado na Revista Metáfora. Que depois foi integrar a antologia É que os hussardos chegam hoje.

Minha pira em dezembro de 2012, que deu origem ao tal poema, é que a hegemonia nos rouba o sentido das palavras mais importantes. Daí vc não consegue falar muita coisa, pq a palavra já está sequestrada, embalada em magipack e vc não consegue dizer porra nenhuma. Tipo a palavra alquimia. Inclusive, nem vou explicar aqui o quero dizer com hegemonia.

É um problema sério esse para poetas. Mas também fonte de grande diversão, pq dar outros sentidos às palavras esvaziadas de sentido é uma das supertarefas de poetas. Não é?

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visibilidade total

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nesses dias de ocupação total de todos os desejos

(mal a palavra ‘alquimia’ termina de ser pronunciada

e todos ouvem ‘demagogia’),

nesses dias que saem nos jornais que alimentam

o medo que vende jornais,

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peço aos mortos que venham nos revisitar.

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e nos sussurrem tão doces, tão amorosos

finalmente o que está escondido.

o que está escondido é o que se vê e não pronuncia.

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o que nos vale nessa hora

(em que já não há mais aflição, pois há anestesia)

é esta artilharia de ventos,

esta prece surda à saudade do porvir

é imaginar a saraivada certeira

das palavras impossíveis.

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[2] A palavra superação

Teria que pensar muito-muito em como assaltar o banco do léxico, queimar o dinheiro em praça pública – onde há fogo, levarei gasolina – e fazer a palavra superação ressuscitar das agências de publicidade. Escapar daquele finalzinho de Jornal Nacional, quando te contam uma história triste com final razoável, com música doce, preparando teu espírito para a resignação aos dias e à novelinha que não tarda.

Tem um texto da Jeanne Callegari que gosto muito. O tema é superação.

Daí tive que dar toda essa incrível volta na postagem pra vc se perder comigo e entender sobre qual tipo de superação me refiro quando quero descrever o texto da Jeanne (afinal, a ignição do post foi o tal do texto da Jê). Duma superação que logicamente não dá pra ser descrita. Entretanto, vc pode imaginar agora qual seja, rá.

O texto é bonitíssimo: O que aprendi ao pedalar 150 km, cito o trecho inicial:

“Sentada no acostamento da Rodovia Castelo Branco, com as pernas cruzadas na posição da borboleta, eu terminava uma sequência de posturas de ioga. Eram quase 8 da noite e, ao meu lado, caminhões e carros passavam zunindo, os faróis interrompendo a escuridão. Eu estava ali fazia 40 minutos, sozinha, cansada, com medo, minha bicicleta estacionada ao meu lado. Depois de pedalar 135 quilômetros em 11 horas, a noite caíra e não dava mais para seguir em frente sem lanterna. Minha água acabara quilômetros antes. Parei a 15 quilômetros da cidade de Boituva (SP), local de início, e fim, da minha jornada. Com o celular, pedi socorro a amigos.

O que eu estava fazendo ali, afinal? Leitora voraz, eu era a sedentária definitiva, caso clássico de última a ser escolhida nos times das aulas de educação física. Acostumada a fugir do exercício como se do próprio apocalipse zumbi, ali estava eu, pedalando 150 quilômetros”. 

+ leia aqui na íntegra

Pra mim, o texto O que aprendi ao pedalar 150 km tem o gosto daquelas subidas intermináveis para o trajeto Itamambuca até o centro de Ubatuba. O ano é algo como 1995. Teria uns 16 anos. Definitivamente não era hype pedalar. Era algo, inclusive, bastante normal e chato. No acostamento, cascalhos tão grandes quanto xícaras de chá. Meu pai, minha mãe e meu irmão me esperando, já no alto e desmontados, entediados com minha falta de preparo físico. Pedalo a bicicleta grandalhona. Reparo que a pintura do guidão descascou um pouco. O sol a pino. O silêncio entre os carros que voam na rodovia. A hora em que vc não aguenta, desce e tem que empurrar. Empurra. Empurra. Nunca termina. Nunca termina. Não tinha a Talita ali. Nem a Tarsila. A adolescência, antes de tudo, é um momento de solidão impenetrável. Em O homem do castelo alto, do Phillip K. Dick, há uma subida interminável também, que se repete, talvez ilumine meu amor por este livro.

subidasO texto da Jeanne tem este gosto, mas um final não-escrito mais bonito. Que nem sempre precisa ser assim. Subidas impenetráveis.

A Jeanne publicou este texto na Revista Vida Simples em 2012. Antes da tal Primavera Literária da foto. À época, a leitura operou em mim uma grande transformação. Era uma forma de finalmente explicar algo difícil:

“Como uma pessoa que somente lê e adora uma cadeira pode ter ainda um corpo? E um corpo capaz de pedalar tanto assim? Será que isso se aplica a minha pessoa?”. 

A educação cultural que divide as pessoas entre pessoas esportistas versus estudiosas. Entre pessoas de exatas versus de humanas (embora nesta última eu acredite, hehe). Se eu era estudiosa, jamais poderia pedalar e subir subidas. Inclusive, até hoje não subo-subidas. Mas não me importo. A possibilidade está ali. Acredito nela.

Daí faço a tarefa de casa

: superar (n). sair de si sem se sair de si. estar no rumo preterido sendo a mesma própria pessoa. ser um superherói sem o ridículo do trajes íntimos vestidos sobre a própria calça. lamber desafios. saber subidas.

"pare de escrever e vamos brincar!"

“pare de escrever e vamos brincar!”

 

 

 

 

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