sobre a pacata vida em diamantina em 1893

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Uma dica de leitura: Minha vida de menina

O curso mulheres-mulheres-mulheres na Casa das Rosas começou bem! Acho. A Jeanne e eu discutimos alguns textos que pretendo comentar aos pouquinhos aqui. Um deles é a obra Minha Vida de Menina, livro atribuído a Alice Brant (1880 – 1970). Digo atribuído, pois a autoria e o processo de produção da obra ainda seguem com certas brumas – alguns dizem-que-a-família-diz que se trata de um diário verídico de uma menina, outros já dizem que nunca puseram os olhos nos originais e a autora escreveu adulta. São suposições. Creio que nesta altura pouco importa, desde que você se anime a ler este belo livrinho. Ótimo para viagens de ônibus e esquecer do aperto no metrô.

Deveria ser daquelas leituras obrigatórias para pessoas de 13 anos. Substituir a literatura adulta intrincada e complexa que se pede por aí. Ou se pedia. Nunca se sabe da boa ou má sorte das novas gerações e as novas pedagogias. Tenho a mesma convicção a respeito do Diário de Bitita de Carolina Maria de Jesus, obra cujo trechinho lemos no mesmo encontro e que pretendo comentar aqui em breve.

Minha vida de menina trata dos anos de 1893 a 1895 em Diamantina. Retiro da apresentação:

“História da vida privada avant la lettre, o livro radiografa o cotidiano da sociedade brasileira de província nos primórdios da República, momento em que “a escravidão acabava de ser abolida e o trabalho livre não estava ainda enquadrado nas alienações da forma salarial”, como observou o crítico Roberto Schwarz em seu ensaio sobre Morley, “Outra Capitu” (em Duas meninas, Companhia das Letras, 1997). As contradições sociais, as lentas inovações tecnológicas, os atritos interpessoais, as festas religiosas, as várias faces do “racismo cordial”, tudo isso surge nas páginas de Minha vida de menina numa linguagem franca e saborosa, plena de humor e calor humano”.

A forma de diário, que aparenta ingenuidade, traz uma narradora mordaz, cheia de ideias próprias, julgamentos e reflexões. Lembra um pouco a Emília do Monteiro Lobato, mas não releio qualquer coisa do Lobato faz um tempinho (inda mais depois de ler certas cartas deste senhor – embora eu deveria ter mais estômago e/ou menos preguiça). Como Helena tem uma cultura na família diferente da cultura predominante da Diamantina à época (a “inglesinha”), essa característica faz com que consiga pensar bastante em temas que aos olhos dos outros são óbvios. Desde a escravidão e todo o seu legado horroroso até o lugar da mulher, hábitos de asseio, do ensino, dinheiro e religião.

Gosto mesmo do livro do Roberto Schwarz que comenta este livro em comparação com Dom Casmurro, esse Duas Meninas. Aliás, devo ao Schwarz esta descoberta. Conversando com uma colega, soube ainda que há um filme baseado na obra e este foi feito com bastante fidelidade à questão histórica, principalmente com respeito aos trajes e cenários. Fica outro convite.

Leia um trechinho aqui

Assista o filme aqui

Depois conto mais dos poemas que lemos e discutimos.

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