Se pensar em morrer, cuide para que nenhuma lápide traia o lugar onde você jaz

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Para conversar sobre os poemas do ciclo Guia para o habitante das cidades de Bertolt Brecht e sobre a vida nas cidades o DASP, o Depto. de Letras Modernas da FFLCH-USP e a a Fundação Rosa Luxemburgo convidam para debates nos dias 23 e 24 de junho.

 

Programação

Dia 23/06, quinta-feira, a partir das 19h30:

– Iumna Simon, crítica literária

– Pedro Arantes, arquiteto e urbanista

– Sabrina Duran, jornalista na área de urbanismo

– Mediação: Ana Rüsche

Dia 24/6, sexta-feira, a partir das 19h30:

– Carol Vigliar, do MLB – Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas

– Tercio Redondo, tradutor e professor de literatura alemã

– Vera Telles, socióloga

– Mediação: Gustavo Assano

 

O evento será no auditório da Fundação (Rua Ferreira de Araújo, 36), é gratuito e tem o apoio da Rádio Popular, que transmitirá o evento ao vivo. Todos os detalhes aqui

 

Sobre Guia para o habitante das cidades

A cidade contemporânea, sob a ótica de quem a habita, homens e mulheres sujeitxs a um processo de espoliação sem precedentes, às voltas com um ambiente cada vez mais hostil a suas necessidades mais elementares.

Esse cotidiano sombrio irrompe no Guia para o habitante das cidades (“Aus einem Lesebuch für Städtebewohner”), ciclo de poemas que o jovem Brecht escreveu às vésperas da grande crise de 1929. A obra, inaugural de uma poesia visceralmente citadina, aponta para uma situação que é provavelmente mais contemporânea de nós mesmos do que da geração que viu surgir o nazismo e seu poder genocida e autodestrutivo.

Separe-se de seus amigos na estação.
De manhã, vá à cidade, com o casaco fechado.
Procure um quarto e quando o seu amigo bater:
Não abra, ah, não abra a porta.
Antes,
Apague os rastros!

Quando encontrar seus pais na cidade de Hamburgo, ou noutra parte,
Passe incógnito por eles, dobre a esquina, não os reconheça.
O chapéu que eles lhe deram, enterre-o na cabeça.
Não mostre, ah, não mostre sua cara.
Antes,
Apague os rastros!

Coma a carne que houver! Sem parcimônia!
Quando chover, entre em toda casa, sente-se em cada cadeira que lá houver,
Mas não permaneça sentado! E não se esqueça de seu chapéu!
Digo-lhe:
Apague os rastros!

O que você disser, não o diga duas vezes.
Se verificar em outrem o seu próprio pensamento: renegue-o.
Aquele que não deixou sua assinatura, que não deixou um retrato,
Que não esteve presente, que nada disse,
Como pode ser apanhado?
Apague os rastros!

Se pensar em morrer, cuide
Para que nenhuma lápide traia o lugar onde você jaz,
Portando uma clara inscrição com seu nome, que o denuncia,
E trazendo o ano de sua morte, que o acusa!
Mais uma vez:
Apague os rastros!
(Isso me foi dito)

Tradução de Tercio Redondo.

 

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