Resenha: Deixe as estrelas falarem, Lady Sybylla

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Deixe as estrelas falaremresenha originalmente publicada no Goodreads

Deixe as estrelas falarem by Lady Sybylla
Editora Dame Blanche, 2017

“Deixe as estrelas falarem” é um livro de ficção científica brasileiro que conta as aventuras da capitã Rosa Okonedo em uma viagem espacial. Dialoga como Star Trek, Stargate e até mesmo com “A longa viagem a um pequeno planeta hostil” de Becky Chambers.

Com um charme que só uma protagonista mais velha e durona pode apresentar, o livro é de uma leitura deliciosa.

Uma narrativa em primeira pessoa

A narrativa é movida pela capitã, que deseja retornar a suas viagens espaciais após um período que passa em terra firme entediada, cuidando da filha com problemas de saúde e sua neta. Inicialmente ela se move entre uma culpa por/ter sido ser uma mãe ausente e uma vontade de voar.

A protagonista é bem construída: uma mulher mais velha, 90 anos, embora geneticamente aparente menos, que trabalhou com afinco, conhecendo trabalho árduo e dificuldades durante muitos anos. Sente-se feliz e querida por sua tripulação.

A narração em primeira pessoa guarda tensões sobre julgamentos da capitã e o que é narrado. Esta tensão cria a trama amarrada da história. Por exemplo, embora a capitã se mostre experiente, comprometida e séria, a realidade é que seu planejamento e forma de atuar dependem muito de sorte e contatos pessoais, o que deixa a tripulação em uma situação precária: dependem do que não se pode prever. Nada mais brasileiro ;)

Um olhar sobre as dificuldades financeiras

Como o cargueiro Amaterasu opera em um regime independente para não se vender a um grande conglomerado e ser um mero integrantezinho numa frota, acaba tendo que aceitar cargas de pequenos produtores.

Dessa maneira, não bastaria somente a eficiência e profissionalismo da capitã para conseguir contratações novas. Dependem de fatores inesperados e bonança.

Além de um certo Porto com nome de cidade brasileira que aparece em determinado capítulo, há um outro aspecto bem típico da América Latina: um flerte entre o cumprimento de leis e a possibilidade de realização de contrabando, considerando que o descaminho seria uma opção de sobrevivência e garantia de salários da tripulação do Amaterasu.

O olhar sobre as dificuldades financeiras de se manter um cargueiro são contribuições muito boas que a autora faz a este tipo de literatura, que quase nunca trata de questões econômicas, como se financiamento para viagens e comida estivessem magicamente garantidos (Becky Chambers trata da questão, mas por um outro viés, em outro fórum, conversamos sobre isto – se vc souber de outro exemplo, avise!).

Feminismo, representatividade

O cargueiro é um microcosmos de tolerância. Mesmo que na tripulação haja pessoas que poderiam ser discriminadas fora, a capitã faz de tudo para que as pessoas sejam respeitadas, suas capacidades valorizadas, enfim, que se sintam bem. Uma outra maneira de se demonstrar a liderança.

Embora o universo proposto pela autora seja de muito menos machismo e de mais garantias às mulheres, não deixa de ser irônico que a narrativa gire em torno justamente da “culpa maternal”, que traça um fio condutor da obra.

 

Queremos mais um!

O livro trata de um universo que está pronto e tinindo para a expansão em novos volumes.
Espero que a capitã Rosa Okonedo tenha outras aventuras em breve!

Veja todas as minhas resenhas no Goodreads!

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