Poesia sem fim, por um cinema que cure

A proposta do filme novo de Alejandro Jodorowsky não podia ser outra: um cinema para mudar o teu espírito

Um filme para que quando você saia da sala escura, tenha descoberto algo que estava adormecido em ti. Uma saída para o cinema de autoria. Um cinema que esteja disposto a perder. Que não destrua o planeta. Que cure. Um cinema otimista, alegre. Maravilhoso. Com aquela força de vontade férrea e vontade de falar e falar, Jodorowsky grava esse pedido de crowdfunding para levantar fundos e filmar o seu “Poesia sem fim”. Nem preciso dizer que arrecada tudo que precisa e mais um pouco (assista aqui).

Alejandro Jodorowsky é dos grandes artistas que atravessa o século XX para chegar com toda a beleza da maturidade no XXI. Mago. Tarólogo. Ilustrador. Roteirista. Cineasta. Entretanto, escolheu aos 87 anos o título de “poeta”. Título que é repetido vezes e vezes no filme, título nobiliárquico, xingamento, sentença.

Para contar sua autobiografia escolhe fincar o pé na poesia. Na profunda tradição da poesia chilena. Quem curte, irá adorar o filme. Stella Díaz Varín e Nicanor Parra são retrabalhados nessa procura pela memória jodorowskiana. Cenas pra quem tem saudades de Santiago não faltam. As citações poéticas em si não impressionam muito. Entretanto, a proposta do filme é mostrar que poesia é ato, poesia é escolha, poesia é a própria vida.

Assim, as escolhas do jovem artista, seu coração rebelde e amoroso são suas poesias. O filme é muito recomendando se você é uma pessoa criativa, se precisa fazer uma escolha, se precisa repensar a vida. Como o conselho será suspeito, é bom pensar bem antes de fincar o pé no barco.

Sou suspeita e fico muito grata em ouvir a voz desse querido mestre excêntrico, que queima todas as pontes, porque lá tem um grande par de asas pra o levar pra onde mais desejar.

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poesiasinfin

Em tempo 1: maravilhosas atuações de seus dois filhos, o Adan (como Jodorowsky jovem) e o Brontis (como o pai do Jodorowsky). As demais mostram só o carinho e o esmero de quem atuou pelo diretor.

Em tempo 2: uma matéria muito mal feitinha do Zero Hora, além de criar um novo arcano do tarô – “o carrasco” – escreve um troço tão machista e ignorante sobre poesia que afe. Cito: “Após libertar-se do asfixiante jugo familiar, inicia sua vida sexual com uma poetisa, conhece os intelectuais da época e estabelece amizade com o poeta Enrique Lihn. Conhece Nicanor Parra (…)”. Ou seja, a Stella Díaz Varín vira simplesmente “uma poetisa” na matéria, ahahá, que terror… Recomendo o filme La Colorina sobre a vida dela pra quem não quiser passar vergonha com quem assina a matéria.

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