Olimpíadas: Drummond na London Review of Books

A London Review of Books traz uma matéria assinada pela Kathleen McCaul Moura a respeito da aparição de versos do Drummond na abertura das Olimpíadas.

carlos_drummond

A estátua clássica, foto retirada da Wikicommons.

A Kathleen escutou alguns escritorxs brasileirxs e fez um bom texto colocando em perspectiva este uso de trecho específico A Flor e a Náusea pelo Fernando Meirelles. Participei da entrevista e colo um trechinho:

“There was one small symbol of protest in the ceremony, however, right at the end, when the actors Fernanda Montenegro and Judi Dench read from a poem by Carlos Drummond de Andrade, ‘A Flor e a Náusea’. The verses, about a flower growing in a polluted city, were part of the event’s ecologically themed finale. But the poem is about political as much as environmental distress. The opening verses, which were left out last Friday but have been studied in Brazilian schools for years, describe a working-class man sickened by the society around him. He sees ‘grimy eyes’ (‘olhos sujos’) looking down on him from above and knows ‘the time of full justice has not arrived’ (‘o tempo não chegou de completa justiça’). The narrator is disillusioned with his country and his city. He realises that nothing, whatever the newspapers say, has changed for the better. ‘Forty years,’ he says, ‘and not one problem solved’ (‘Quarenta anos e nenhum problema/resolvido’). It’s a sentiment shared by many Brazilians today.

Drummond was born in 1902. ‘A Flor e a Náusea’ was written during the Estado Novo era of 1937-45. The president, Getúlio Vargas, had launched a coup d’état, shut down Congress and turned the country into a dictatorship. ‘The poem was meant as a protest against this,’ the poet Noemi Jaffe told me. ‘It was used in a different context in the opening ceremony,’ the writer and editor Ana Rüsche said, ‘but in an era of political uncertainty in Brazil, with controversies over the legitimacy of the government, the poem works very well.’ [leia na íntegra aqui]

 

Quando a Kathleen me escreveu, fiquei pensando bastante. Caramba. Tudo isso do #ForaTemer e justo este poema!

Só pra te ajudar, contextualizo um pouquinho: o poema A Flor e a Náusea foi publicado em 1945 em um dos livros mais famosos do Drummond, A Rosa do Povo. Quem concluiu o ensino médio no Brasil, certamente leu este poema em sala de aula.

O irônico é que o poema foi escrito dentro de uma época de depressão econômica, de um Brasil que sofreu as mazelas da 2ª Guerra Mundial e na pior parte da ditadura Vargas, o “Estado Novo” (1937 – 1945). Um governo populista marcado pelo uso de meios de comunicação em massa como a novidade do rádio, obviamente bastante controlado e direcionado pela ditadura. Fez plin-plin aí?

O poema comenta esta incerteza e melancolia, da visão de quem trabalha. Ainda: como alterar isso, dentro de um panorama tão negativo e dúbio? A Flor e a Náusea começa com versos muito fortes que certamente não foram recitados na cerimônia de abertura das Olimpíadas, na presença do então Presidente Intestino, poeta das mesóclises, vaiado até:

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

O poema trata da possibilidade de existência digna em plena crise econômica e em uma crise política. O equilíbrio do texto é construído no alicerce: toda a depressão melancólica nauseabunda é balanceada pelo utópico que floresce. A imagem da flor. Mesmo com tudo que exista, há a flor. Que pode acontecer. Furar o asfalto. Mesmo feia e mirrada.

O inusitado do uso do poema na abertura das Olimpíadas foi aproveitar a imagem da flor para falar de ecologia (!), um tema subjacente, que aflora no século XXI. Algo extremamente necessário em um país depredado pelo agronegócio e que não possui um debate ecológico ainda fortalecido. Ao mesmo tempo, esse uso enviesado ceifou as ideias políticas sobre crise e resistência que estão no âmago do poema.

Como diria meu amigo do Demônio Amarelo, “Posso, sem armas, revoltar-me?”, queria ter ouvido esse verso dito pela Fernanda Montenegro & pela Judi Dench em “A Flor e a Náusea”, esse sim do sr. Drummond de Andrade, que leram em versão castratto naquela noite de faz-de-conta das Olimpíadas.

Fiquei pensando se a estátua do Drummond esboçou no dia seguinte um sorrisinho. Ou uma facepalm no estilo do logo da Copa. Vai saber.

 

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