o horrrla rides again!

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Apontamentos do que lembro agora sobre o debate realizado no b_arco, sábado, 26 de fevereiro, com a Raquel Degenszajn. Ciclo sobre Psicanálise, Arte e Estética: A Angústia e o Sinistro em O Horla, de Guy de Maupassant

Pensei em escrever esse texto quase como se fosse um post do blogue. Algo assim sem muitas pretensões, mas que instigasse a leitura, o ir atrás, isso tudo. Na verdade, admito, é muito mais que isso – este texto foi exatamente pensando como um post do blogue. Algo assim como agradecimento, pela excelente manhã ensolarada que passamos juntos no b_arco a discorrer sobre O Horla; aos amigos de cartel que ajudaram com tantas sugestões, que eles nem imaginam quando as proferiram; às palavras do Dirceu, ao Sentelhas que me presenteou com o livro – em resumo, agradecer a essas minúsculas multidões que estão por trás e pela frente e lados, abraçando tudo que produzimos.

Recebi o convite ainda no final de 2009. Isso é muita antecipação e cria uma certa familiaridade estranha com o tema. Você já sabe que, dentro de 4 meses, terá que discorrer sobre a angústia e o sinistro numa manhã ensolarada de fevereiro. Falar cerca de 45 minutos sobre O Horla, conto do Guy de Maupassant, acompanhada da psicanalista Raquel Degenszajn, para platéia interessada no tema “arte, estética e psicanálise”. Hum-hum. A coincidência, embora saibamos bem que não existe, foi bem feliz: havíamos lido no cartel o texto O Estranho do Doktor Freud, no qual cita o insuperável conto O Homem de Areia, do ETA Hoffmann. A Silvana, após a discussão sobre unheimlich, gemütlich e tudo o mais, havia nos enviado O Horla, que também trata de duplos. Como recebi o tal convite antecipadíssimo depois destas circunstâncias, logo previ que seria assim a manhã de fevereiro: ensolarada, com a Raquel e eu a discorrer para uma platéia solta, simpática, toda ouvidos, a respeito d’O Horla.

Lamento dizer que há pouca coisa na internet sobre O Horla em português. Umas citações ali e acolá, por isso decidi escrever aqui sobre nosso debate de ontem, tomando meu chá predileto, num dia frio e chuvoso, com o supercãozinho esquentando meus pés. E dividir com você.

Nosso Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 1850, na cidade de Fécamp, norte da França. Viveu durante a Terceira República Francesa (1870-1940) e assistiu a Guerra Franco-Prussiana e a Comuna de Paris. Listo aproximado rascunho da época: uma Inglaterra que desponta com o império do sol que nunca se põe, a desfilar seus navios por todos os portos; as conseqüências do governo de Napoleão Terceiro, mas segundo na vez como farsa; o Bismarck mordendo os calcanhares da França; Estados Unidos levantando a mãozinha e acenando à Europa. A França de Maupassant então imagino ser esse local de ebulição, crises e incertezas, situação que o narrador d’O Horla ignora com maestria nas anotações em seu diário. E nada mais interessante do que enxergar o quê o narrador faz questão de esconder: exatamente o quê o escritor nos permite vislumbrar por tantas frestas… Imagem: Le regime parlementaire, charge de Coide, retratando Napoleão III.

Maupassant foi advogado, viveu com muitos prazeres e bons amigos, entre eles o Flaubert e Zola. Teve a infelicidade de conhecer a sífilis – doença que o acompanha inclusive a composição do conto em questão. Falece aos 43 anos (1893), no manicômio de Passy, em Paris, após tentativa de suicídio.

Sua produção é profícua, pelo que encontrei por aí são cerca de 300 contos, quase 27 livros em dez anos – ele padeceu também do ‘Efeito Veríssimo’ – vários contos de autoria duvidosa são a ele atribuídos. Conforme o tradutor Amilcar Bettega, “Escrevendo diretamente para o espaço e o público dos jornais (mais tarde é que os contos eram reunidos em livros), Maupassant sabia que tinha de ser eficaz e prender a atenção do leitor”.

Não sou lá de grandes conhecimento sobre o gênero, mas vejam que a short story florescia à sério nesse período, com ávidos leitores e bons espaços de divulgação. Sobre a coincidência que não existe, no mesmo ano em que foi publicado O Horla, estréiam Sherlock Holmes e seu inseparável Watson, em Um Estudo em Vermelho do Sir Arthur Conan Doyle, autor conhecido por suas inúmeras narrativas curtas, intrigantes e populares. Creio que a confortável previsibilidade na construção faz com que esse tipo de texto seja atraente ao grande público, aliado com temas bem palatáveis (como o exótico, o sobrenatural, os crimes), enfim, a alteridade colocada de forma comportada, sem ameaçar ninguém, envolvida numa atmosfera de suspense, corporificada por personagens de simplicidade convincente. E consideremos também que estes autores que sabiam construir muito bem suas frases. Só para citar alguém, Otto Maria Carpeaux atribui ao Maupassant (meio que a contra-gosto, parece) a invenção do gênero short story, composição em prosa, curta, com “uma ou duas reviravoltas bruscas” que dão um “efeito infalível”.  Imagem:”- Watson, você pode ver tudo. Não consegue, contudo, raciocionar a partir do que vê”.

O Horla teve duas versões: uma como confissão (1886) e uma em forma de diário (1887). E que diabos significa Horla? Bem, há vários chutes. O mais veiculado é a origem hors la (que, lá no b_arco, esqueci de mencionar e a Raquel Degenszajn por sorte não esqueceu!), haveria um “fora”, um fora-de-lá, como em hors-la-lo, fora-da-lei, algo assim. Não resisto em citar a hipótese sobre a travestida no título: “Acrescente-se o curioso título da novela, em francês Le Horla. O artigo do nome é masculino, porém a terminação é feminina. Há também a hipótese do nome derivar da fusão do nome da mãe de Maupassant (“Laure”) com o nome de seu melhor amigo. Clássicos da homossexualidade, psicologicamente falando: a mãe e um amor travestido de amizade (+ aqui)”. A ausência de grande figura feminina no conto e a forma do diário íntimo (diferente do másculo diário de viagem) parece corroborar a tese, hum-hum.

Leiamos então o início do diário:

8 de maio. Que dia lindo! Passei a manhã toda deitado na relva, na frente de casa, sob o enorme plátano que a encobre toda. Gosto desta região, de viver aqui, pois aqui estão velhas recordações, aquelas raízes profundas e delicadas que prendem o homem ao solo onde seus antepassados nasceram e morreram, que o ligam às idéias e costumes do lugar e também, à comida às expressões locais, ao cheiro da terra do próprio ambiente.

Adoro a casa onde cresci. Das janelas, vejo o Sena, correndo ao lado do jardim, no outro lado da estrada, quase atravessando minhas terras, o grandioso e extenso Sena, que vai a Rouen e a Havre, apinhado de barcos que passam para lá e para cá. Lá embaixo, a esquerda, está a grande cidade de Rouen, com seus telhados azuis e pontiagudas torres góticas. Estas últimas são incontáveis, largas ou estreitas, dominadas pela espiral da catedral e cheias de sinos que tocam no ar azul de belas manhãs, enviando até minha casa seu doce e distante tinido, canção de metal que a brisa impele em minha direção, ora forte, ora débil, conforme a intensidade do vento. Como a manhã estava agradável!Lá pelas onze horas, uma longa fila de barcos. puxados por um rebocador do tamanho de uma mosca, que mal conseguia resfolegar enquanto soltava espessa fumaça, passou em frente a meu portão. Depois de duas escunas inglesas. com a bandeira vermelha ondulando ao vento, passou um magnífico barco brasileiro de três mastros, todo branco, muito limpo e lustroso. Saudei-o, sem saber bem por quê, a não ser que a visão do navio deu-me grande prazer.

Como o bom texto que é, podemos retirar daí quase todos os elementos que nortearão a narrativa e o suspense. Sabendo-se que seria um conto de terror, o excesso de tranqüilidade árcade das descrições iniciais, a felicidade do narrado por seus domínios, suas origens, tudo isso está ameaçado pela terrível sombra que já se vislumbra… Mais tarde teremos a confirmação: O Horla, esse ser invisível, imaginário e ameaçador, chegou com o navio brasileiro.

Tenho uma viagem, bem passível de um bom número de críticas, que isso dos navios ingleses é fundamental. Imagine este senhor de 40 anos, todo racionalista, francês nacionalista, burguês freqüentador de óperas, com seus criados fiéis. Será que assistiria impassível a navios ingleses desfilando praticamente pelo seu quintal? Hum, creio que isso da França não possuir colônias à época devia exasperá-lo. E será que o acenar ao navio carioca responde? Um acenar às boas lembranças da França Antártica? Um bem-vindo, colônicas africanas, que ao mar nos lançaremos? Não sei. Mas a viagem minha dá alguns frutos interessantes: O Horla é isso do desconhecido, o que nunca se consegue apreender, o invisível ameaçador, o outro exatamente dentro de nós próprios – seriam os europeus que voltam “mudados” das colônias? Seriam “os outros” que por lá moravam? A desagregação das certezas cartesianas? Algo perturbados, que não conhecemos a existência, nem podemos controlar. Vamos ler mais uma entrada, perto do final do diário, que sempre me provoca risadas:

19 de agosto. Eu sei… eu sei… eu sei tudo! Acabei de ler o seguinte, na Revue du Monde Scientifique: “Curiosa noticia chega-nos do Rio de Janeiro. Loucura, uma epidemia de loucura, comparável à loucura contagiosa que atacou a população da Europa, na Idade Média, está, neste momento, grassando na província de São Paulo. Os habitantes, aterrorizados, abandonam suas casas, dizendo que estão sendo perseguidos, possuídos, dominados como gado humano por seres invisíveis, mas tangíveis, uma espécie de vampiro, que se alimenta da vida deles enquanto estão dormindo, e que, além disso, bebe água e leite, sem aparentemente tocar nenhum outro alimento. “O professor Pedro Henrique, acompanhado por vários médicos, foi à província de São Paulo, a fim de estudar a origem e as manifestações dessa surpreendente loucura, no local, e propor ao imperador as medidas que lhe pareçam mais cabíveis para fazer com que a população recupere a razão”. Ah! ah! lembro-me agora daquele belo navio brasileiro de três mastros que passou em frente às minhas janelas, subindo o Sena no dia 8 de maio passado! Achei que parecia tão formoso, tão branco e brilhante! Aquele Ente estava a bordo, vindo de lá, onde sua raça se originou. E me viu! Viu minha casa, também branca, e saltou do navio para terra. Oh, céu misericordioso! Agora sei, posso adivinhar. O reino do homem acabou, e ele chegou.

Ao final, este homem, todo seguro de si mesmo e de seus próprios domínios acaba por atacar desesperadamente esse ente invisível, toda essa idéia de água ameaçadora, sem limites, sem contornos, com fogo – nada mais apropriado – e acaba queimando a própria casa com os criados dentro. Nas palavras do autor, nos finalmentes do conto:

Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?… Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…

Lendo assim meus apontamentos acima, me parece tudo muito jogado, desculpa. É assim que funciona.

O Horla às vezes também vem me visitar e, inclusive, sumiu com o exemplar do livro que o Sentelhas me presenteou. Ainda bem que o Canek, o supercão, está de olho na criatura. Em outros dias, ela volta travestida de outra coisa. Sinto que está frio hoje, espero uma mensagem de texto, mas o que chegou foi um spam da operadora, vou sair para não adoecer e tomar um chocolate quente na esquina.

Bom, acho que acabar assim está bem. Devia ter mencionado outras passagens aquáticas, as cabras, as torres góticas, o trecho em que (não) se vê o Horla no espelho (lembrança da Raquel), falar de outros livros de literatura fantástica… Ao menos, tentei ontem e agora falar o mínimo de psicanálise, de sujeito, simbólico, espelhos em estádio, isso foi tratado de forma simpática e clara pela Raquel. Enfim, caro você, impossível contar direitinho o que se passou ontem, naquela manhã ensolarada, paciência. Lembro ainda que houve uma pergunta importante, sobre a redenção (palavra séria esta, não é?) – se o narrador poderia ter outro fim, outra chance. Não sei dizer. Me parece uma via de mão única o texto, uma tentativa após tentativa de nomear o inominável. Lamento informar que não é todo o dia em que a gente pode brincar de deus.

Vou lá passear com o Canek. Lê o conto. E deixo aqui uma manhã ensolarada de fevereiro nos registros. Quando falar de angústia foi subitamente tão leve. Do sinistro, não me lembro. Meu agradecimento.

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