O Amor nos Tempos de Câmera (trecho)

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Cena I. No Banco Ante a Câmera

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VOZ: Não ultrapasse a faixa amarela. Após o sinal da campainha, não embarque no trem. Sua segurança é o nosso direito.

CLARA 1: Ando pelas calçadas como um desperdício. Vesti pérolas falsas e rendas, contudo sou gasta entre ascensoristas, professores universitários, jornaleiros e entrevistas de emprego.

Pausa

CLARA 1: O dia cinza faz-me pensar no amor. E o que será o amor nos tempos de câmera?

SEGURANÇA DO BANCO faz sinal para que Clara tire seus metais e coloque na caixinha antes de entrar no estabelecimento bancário, enquanto a CÂMERA segue seus passos.

CLARA 1: Entro no banco para pagar contas, hoje são as contas as únicas cartas que se lembram de mim. Despeço-me de todos meus metais em uma caixinha, sou inteira plástico e bijuterias.

O SEGURANÇA DO BANCO recolhe a caixinha com os metais e ignora-a. A CÂMERA segue-a. CLARA 1 retoma seus metais após passar pela imaginária porta giratória.

CLARA 1: O Olho repara nos cabelos arrepiados, ainda impregnados de sonhos e o lençol quente, larguei-os cedo demais como mães a deixarem os filhos com a televisão. Pressinto, a máquina me segue! Entretanto, nem a câmera repara ao certo no desperdício de minha beleza bem maquiada para uma manhã de quarta-feira.

Chega-se ao Caixa, estende contas amassadas ao GAROTO ATENDENTE DO BANCO.

ATENDENTE: Sem saldo suficiente, senhora.

CLARA 1: Não tem problema, obrigada, viu? Depois eu pago.

Pausa. Enquanto CLARA 1 guarda suas contas e confere os números e arruma os cabelos, CLARA 2 e 3 despem-se de seus personagens anteriores e discutem o resumo da história de amor mal sucedida…

CLARA 3: Apaixonei-me duas vezes na vida. A primeira foi aos 25 anos, um pouco tarde, e por isso mais letal: considere-se, é uma virose – quando contraída por crianças, sara rápido e deixa marquinhas denunciadoras de charme e personalidade; caso contraída por adultos, adquire resistência e deforma a pele por um tempo.

Pausa

CLARA 3: O objeto da paixão foi um homem raso, como poderia ser diferente?

CLARA 2 (complementando): O fundamental: tratava-me como um acessório.

CLARA 2: Dessa maneira, não houve como resistir… trocamos quilos e quilos de vogais e encontros arapucas por e-mail, evocamos falas de personagens, sovamos dramas minúsculos, tão profundos!, pequenos abismos onde atirávamos pratos na parede.

CLARA 3: Como pode perceber, de imbecil tinha muito pouco, ou talvez muito, entretanto, não há melhor qualificação para esse primeiro amor antigo que esta.

CLARA 2 (complementando): Um imbecil, veja só.

CLARA 3: Na realidade, tudo durou uns poucos meses. Adoeci. Coração aos solavancos frente à perspectiva de encontrá-lo. Chorei compulsivamente ante a negativa de sermos felizes para sempre.

CLARA 2: Considero esse estado uma demência. Ou uma perversidade de comportamento toxicômano.

Pausa.

CLARA 2: A história para ser mais bem narrada teria que ter um começo, mas não há começos interessantes para histórias de amor, normalmente… num eis e estão apaixonados!

CLARA 3: Poderia dizer também que não houve um dia de fidelidade a esse primeiro amor…

CLARA 2:… pois mesmo os acessórios ganham vida própria!

CLARA 3: Sim, admito, fui muito vadia, uma vadia!, durante esses poucos primeiros meses de paixão extremada, como se com as pernas abertas para outros conseguissem tirar aquele ranço melancólico dos ossos.

CLARA 2: Tentativa falha.

CLARA 3: Provavelmente até tenha sido isso que justificou a negativa de abdicarmos de vivermos felizes para sempre.

Pausa. CLARAS 2 e 3 já estão um pouco irritadas. CLARA 1 intervém apaziguadora.

CLARA 1: Outra observação importante é que essa paixão foi heterossexual: entre um homem e uma mulher. Sempre mais sem graça e previsível.

CLARA 3: Pois bem, não havia como dar certo nada daquilo, não obstante meu sofrimento ímpar e a dedicação de todos meus pensamentos àquele primeiro amor. Foram dias e dias entre chocolates, entradas na caixa postal do e-mail, conversinhas com amigos e amigas…

CLARA 2: Pessoas vazias e desconhecidas que, em um átimo de segundo, logo se tornavam conselheiros mediúnicos sobre a natureza humana!: crendices aparentemente sem nenhum sentido, explicavam os fatos como predições do destino e cada fragmento de sentido parecia exarar as pitangas choradas pelo desamor.

Pausa.

CLARA 2: No entanto, esse estado de euforia irracional traz à baila algumas verdades, pois a incapacidade na existência de uma história de amor sequer na vida é uma tragédia sem o trágico. E o que poderia soar absolutamente emancipatório e libertador, torna-se opressivo, obrigatório…

Pausa. As três saem do banco, parecem passear pela calçada sem rumo certo. CLARA 3 finge mendigar moedas.

CLARA 3 (alto): Como você nunca se apaixonou na vida?

VOZ: Pedir esmolas é prática ilegal. Colabore. Denuncie.

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Obs.: rubricas e divisão entre personagens servem apenas para orientar a leitura. Quem montar que se divirta, sinta quem lê. Peça escrita para  o  Festival Dramamix, Satyrianas 2007.

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