nunca é só comida

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(sigo tentando organizar pensamentos a respeito de alimentação)

Uma das descobertas incríveis da virada deste ano foi essa: nunca é só comida. É um erro crasso isso das calorias. É quase como perguntar as horas a um extraterreste. Que horas? Para qual sol? Em qual planeta? Desfilar calorias é desfilar fusos horários de outras galáxias. Para alguém fará sentido. Para alguém que não compreende, provavelmente, o sentido da tua experiência com o tempo.

Se te traduzirem, vc até poderá entender: ah, é isto o que significa! Esse tanto de caloria é um brigadeiro. Este outro tanto uma alface. Este aqui é uma corrida de muitos minutos.

Cada experiência com o tempo é pessoal. Há minutos longuíssimos. Outros passam rasantes. Outro que retornam vívidos. Daí é uma presunção exagerada achar que calorias e minutos conseguem efetivamente quantificar sensações, experiências de vida.

O que vc come é o viver. Júbilo, ausências, dever cumprido, tristeza. Às pressas, apaixonadamente, distraidamente. Vc até pode traduzir em calorias. Mas quantas calorias terá a tristeza? O júbilo seria mais ou menos calórico?

Comer é algo divino. A frase é um tanto batida e, como todos os clichês, possui aquela sabedoria sedimentada: comer é se ligar com o mundo. Muito mais profundo e potente do que nosso mundinho de plástico permite. Pode ser bem aterradora a experiência. Melhor empurrar para baixo do tapete e nem sentir nada. Recusar. Somente traduzir a vivência por calorias intelectuais e distração. Refeições mecânicas. Mas há a vingança generosa do mundo: nunca é só comida. Mesmo que se queira afugentar. Em cada bocado, há um mundo todo. Que passa longe das medições caloríferas. Difícil é prestar atenção em cada sinfonia que há em cada garfada.

Imagino que nunca seja tarde para se parar e ouvir.

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