Margaret Atwood: de quanto o real supera a ficção

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Escrevi a matéria de capa do Suplemento de Pernambuco de dezembro, a respeito do sucesso de Margaret Atwood em tempos de ascensão conservadora.

Seria 2017 o ano da Aia? A partir desta provocação do editor, Scheider Carpeggiani, desenvolvi o texto. Foi um trabalho bem desafiador, miolos fritos por todos os lados, buscando lá no fundo experiências e estudos antigos, contrastando com conversas e aulas recentes.

As ilustrações da Maria Julia Moreira são impressionantes: dialogamos por e-mail durante o processo e uau, como é bonito ver o trabalho pronto! Maravilhosas!

Coloco aqui o início do texto para você se empolgar e ler com calma na íntegra.

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Margaret Atwood: de quanto o real supera a ficção

A cabeleira branca é um pontinho de luz aos holofotes. Tão miúda, que aprofunda a amplidão do palco. “Frágil”, você bem poderia rotular se não conhecesse a fama de Margaret Atwood. No escuro de um auditório, conheci-a em carne e osso. Fui a uma palestra rotineira de escola, com minha mania de me agasalhar demais. Transpirando entre adolescentes nova-iorquinos, enxerguei na figura septuagenária a astúcia que conhecia de minhas leituras: o sorriso que arma a próxima piada, a mão no microfone com o argumento certeiro. Os olhos vívidos, tão conhecidos dos retratos que pesquisei internet afora.

Na ocasião, Atwood autografava The heart goes last (em Portugal publicado pela Bertrand: O coração é o último a morrer, 2017). Ao final da palestra, desafiei a fila quilométrica de colegiais e consegui trocar algumas palavras, contei de meu doutorado. A escritora abanou a cabeça cacheada, naquele menear ambíguo entre aprovação e o “vamos logo que a fila precisa andar”. Me estendeu o volume. Pedi o autógrafo a um amigo no Brasil, seria um presente de aniversário. Transpus a porta do auditório. O vento gelado valida minha mania por agasalhos. Deparo-me com o azar do clichê de certos momentos da vida: chovia torrencialmente no Brooklyn.

Protegendo o volume autografado do aguaceiro, chapinhando na inútil busca pela estação correta de metrô (minha outra mania é errar o sentido da linha por distração), não poderia imaginar o futuro. Aquele livro que estudei voltaria aos mais vendidos. The handmaid’s tale, bem um título que ninguém entendia direito: O conto da aia. Que minha tese seria procurada e debatida. Que eu participaria de uma marcha com cinco milhões de pessoas — a Marcha das Mulheres, em janeiro de 2017 —, na qual era comum o cartaz Make Margaret Atwood fiction again! (aliás, agora tem a camiseta pronta para vender, se você quiser). O livro, uma vez mais, seria adaptado para uma série. Tão popular, que, vestir-se de aia virou fantasia barata de Halloween — imagino que, logo mais, de Carnaval. Olha, se me contassem tudo isso, eu não iria acreditar. Capaz até de acertar a estação de metrô.

 

O retorno da aia

Venhamos e convenhamos. Não é de hoje que Atwood faz sucesso. O conto da aia mesmo já esteve durante 23 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times. Chegou a ser traduzido para mais de 35 idiomas, foi adaptado para filme em 1990, recebeu programa de rádio na BBC. Até uma ópera foi feita! O perfil da autora (@MargaretAtwood) já figurou na lista das 10 melhores personalidades do Twitter elaborada pelo The Guardian em 2011.

A pergunta interessante então seria: qual o motivo da mais recente onda de sucesso de um livro publicado há mais de 30 anos?

+ leia a matéria na íntegra: http://www.suplementopernambuco.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores/77-capa/2002-margaret-atwood-de-quanto-o-real-supera-a-fic%C3%A7%C3%A3o.html

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Romances de Margaret Atwood com títulos adotados no Brasil

Anos 1960 e 1970

  • A mulher comestível (1969)
  • O laço sagrado (1972)
  • Madame Oráculo (1976)

Anos 1980 a início dos 1990

  • O conto da aia (1985)
  • Olho de gato (1988)
  • A noiva ladra (1993)

Final de 1990

  • Vulgo Grace (1996)
  • O assassino cego (2000) – como O conto da aia, outro sucesso de vendas

Século XXI: opção pela ficção científica

  • Oryx e Crake (2003)
  • O ano do dilúvio (2009)
  • MaddAddam (2013)

Obs.: Há muitos outros romances, sendo o último Hag-Seed (2016). Aqui não se incluem os inúmeros livros de contos, livros de poesia e não ficção. Atualmente, no Brasil é publicada pela Editora Rocco. Bibliografia completa da Atwood (inglês)

+ Twitter da autora

+ Na minha tese de doutorado, analisei O conto da aia no que diz respeito à resignação e utopias feministas.

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