mais vasto é o céu

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Vasculhei ontem e hoje minha atrapalhada cabecinha à procura de assunto preste lugarzito. Já agora me parece tudo bem simples: que sou feliz por possuir minha caixa postal, tão cheia de luzes frias e notícias resplendorosas, e que Drummond sempre é Drummond.

Mas observe, quando publico um poema aqui, há certas regras

: normalmente escolho um livro da estante, me levanto, cheiro as pilhas, ou mesmo um que trouxe na bolsa, folheio, desisto e retorno, insisto e assim vamos. Feita a vítima, adoro datilografar todo o texto, reler com a polpa dos dedos os versos, aliás, taí excelente exercício pra dias sem criatividade. Perceber as gramáticas profundas, as quebrinhas, os detalhes.

Hoje não. Procurei na net e é meio terror. Ainda digo a constatação do óbvio pro Dirceu e ele concordará plenamente comigo: as pessoas possuem um profundo mau gosto. Os poemas do pobre Drummond que circulam por aí, com exceção dos top-10 básicos, são bem sofríveis. Les événements m’ennuient. Isso faz com que cada vez mais goste de Claro Enigma e nem precisa dizer da máquina do mundo, digo mesmo das flores de horta.

Queria assim agradecer ao francês roubado e ao poema copycolado de Além do Muro da Estrada.

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Dissolução

Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.

Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma, 1951.

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