madrugadas são adagas em claro

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sou de uma família de pessoas que sempre deram aula na rede pública. recusei a sina e talvez por isso me afete bastante as notícias das agressões de ontem no paraná. pois não é a minha carne que tá lá. é a de algumas amigas queridas. não foi o meu pulmão desta vez. desta vez.

a renata corrêa pediu pra postarmos poemas no facebook todos os dias durante cinco dias esta semana. hoje seria o último dia. decidi soltar um texto inédito, bem velho, de 2012, fruto de uma série de pesadelos e acontecimentos com os quais nunca soube lidar bem. vai pro daud, pro gus, pra thayz e pra xênia. esperança, às vezes, é uma pílula ruim de se engolir.

[contém cenas de violência]

.

.

do ódio

é isso que se canta pelos céus, pois o mundo ainda não está morto, eu sei, eu sinto, eu ouço que a voz não se calou com sua voz pelos subterrâneos, a voz, profetisa de mundos que nunca existiram, que recebe a palavra em estado de saudade, que me pirateia esses versos caolhos de terra à vista

quando a noite anoitece

& as madrugadas são adagas em claro,

São pétalas defloradas ainda grávidas por punhais

e pureza vira palavra de perigo

mas quando a noite anoitece

ouço os jaguares e não ligo – tigres não comem tigres.

banho-me nas águas da tranquilidade das memórias

(não a calma dos psicopatas banqueiros traçando rotas,

não o sorriso aterrador do suicida na foto antiga das férias na praia)

quando a noite anoitece

estou terrível e calma.

 pois ouço, pelo estralar dos ossos velhos,

 o peso das improbabilidades certeiras da história.

 

e aqui escrevo, do cemitérios dos elefantes, daqueles que a memória é o que resta – é o que os constitui elefantes, maciços, com sua aparência um tanto fofa e descuidada, e parecerem completamente inofensivos é sua arma do maior mamífero, suas herança de mamute e matriarcalismos e vagarosidade histórica, e aqui, do cemitérios dos elefantes, te entrego a farda, leitor-homem

: és, por hora, um dos guardas subalternos, destes que nunca perceberam que possuem o dom da escolha entre torturar ou ser torturado, entrego-te no lixo o futuro de uma bebê parida numa noite de gritos que não ressoam pelo excesso dos ratos que lhe colocaram pelo cu, agora é teu, leitor, o que fará com esse pedaço de carne que mais parece um coração com rabo, esse cordão umbilical como um rabo, uma ponte de carne, não se

iluda, leitor, olhe ao redor, esse meu tempo é exatamente o teu, os teus dias a desfilarem incontáveis com eletrochoques em punho nos próprios mamilos e agora em mãos uma bebê a caminho do lixo – te dou o meu presente que me tiram, meus tempos futuros, isso não é uma brincadeira, leitor-homem, agora não vá se iludir que o que tens a frente dos olhos é um conto, um causo,

presta atenção

quando uma poeta se cala, tudo o mais está morto. pois língua é a linha, lugar onde me fortaleço, trincheira de escaramuças entremeadas de estupros e navalhadas escondidas na liga. onde atraio teus sonhos mais azuis celestes e os transformo em verdades.

e ali, do puro inferno que se tornou essa cidade de zumbis, a sentir os imaginários eletrochoques naqueles bicos de seios grávidos, naquele coração a bater descompassado, já imóvel e sem conseguir respirar pelos horrores, em que a morte resignada aos trilhos de metrô em uma segunda-feira pareceria uma estratégia digna, e ali dessa rua de mão-única, beco com final hiperiluminado por outdoores, vocês vieram

(e leitor-homem, é evidente que vc não é você. coloque-se no seu lugar. não combinamos que vc seria, no máximo, um dos guardas?)

ao puro inferno ninguém precisará descer, pois ninguém possui nos traços as transparentes de elevações do olimpo. tampouco músculos e rosto a semelhança dos deuses gregos – como não lembrar desse ideal de beleza que emprestou seu rosto a todos os santos, a todas as igrejas, a todos os panteões, a todas as lojas de lingeries? – sem ficções, em que temos que mover montanhas de letras para espremer uma mera conjectura. choro um pouco, pois saudades é das palavras a mais comovente

 : saudades é palavra das mais comoventes

 no dia em que não este , pois agora o passado é cego

e saudade é palavra de fúria megera,

nessa terra sem amarras.

e te lembro, leitor-homem, que o inferno é então o cheiro de inferno tão quente de porra. o inferno é o cheiro de porra que reveste a auréola das 2 menininhas de são paulo, zona oeste, 14 anos em 2006 que ainda têm sorrisos de dentes de leite, que se oferecem

: sou a boqueteira do shopping center, porém têm vergonha de aceitar um copo de pinga e riem como criancinhas. o inferno é então o cheiro de porra que conclama em 1999 a ninfomaníaca de 18 anos, que serviu como informante aos ditadores da guatemala, contratada para descobrir em suas estratégias na cama os segredos dos líderes estudantis. o inferno é o cheiro raivoso de porra que expelem podres 37 paus chupados pelas duas menininhas boqueteiras do shopping center, em uma noite só, em que os homens subiam as escadas de 2 em 2, duros, desejando inserir o que resta de real em seu corpo na boca daquelas 2 menininhas de 14 anos, os homens frequentadores das lojas mais descoladas, consumidores bem vestidos, uma linha de produção, em que se um turno falha, elas sabem como concertar no modo manual, e chupam, chupamos os 37 paus, assim como a ninfomaníaca contratada pela oligarquia da guatemala num acesso de raiva abriu as pernas para 18 estudantes guerrilheiros nicaraguenses que estavam na faculdade para uma reunião de líderes estudantis, e os 18 estudantes que dizem ler gramsci foderam a ninfomaníaca informante por 18 vezes, ali mesmo no estádio da universidade, gorilas guerrilheiros, e a ninfomaníaca arrastou-se por semanas com dores atrozes, e o inferno é o cheiro raivoso de porra podre que exalam os tapetes, os sofás, a arquibancada do que resta dos afetos onanistas de espermatozóides de fetos que nasceriam abortados, da destruição criativa de afetos avassaladores, que nos estupram, que nos estupram, nos estupramos. e leitor-homem, o inferno é a raiva que me come os olhos por só te contar a verdade.

mas vcs vieram

exatamente por dentro do puro inferno, muitos rostos se fundem dos subterrâneos da própria escuridão, primeiro uns olhinhos simpáticos, após mãos imensas, muitas e tão fracas (pois a mão forte é a que esmaga, e naquele momento o que precisávamos era aprendermos a perder). habituados a limpar esgotos de pesadelos, a gente se toca. e se inscreve na pele muits canções que anunciarão com suas cantigas o final da pós-modernidade, que nada mais é do que a falta de amor em uma cidade que somos nós próprios, e não escutamos mais esses ventos especulatórios, que carregam as más tempestades inflacionárias que quebram bolsas sem valor, e escutamos melhor juntos os jaguares que cantam nos céus, que amanhecem todos os dias a história que inventamos e não nos damos conta – isso não é uma rua de mão-única, isso não é um beco, as vozes não se calam por que ela não existe, por que a voz é a própria ficção e isso ninguém nunca irá conseguir controlar. nos abraçamos muito, mais alto do que as sirenes que já se aproximam. alguém sussura

– venha, amor. isso aqui não é um lugar para se ficar a sós.

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