O homem que sabia javanês, o Brasil de Lima Barreto

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Reli esta manhã “O homem que sabia javanês” do Lima Barreto. Trouxe na mala de Paraty, livrinho feito pelas Edições Primata, comprado ali no calçadão.

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O duro de ler o conto é ver o quanto seu tema permanece entranhado no Brasil: um malandro finge ter certo conhecimento e se dá bem. O que é mais notável nem é o fato dele se manter financeiramente com a farsa, ganhar cargos e honrarias. O que é notável: em nenhum momento, seu conhecimento é posto à prova, sua aparência de douto jamais é contestada.

Vejamos com mais calma. O conto parte da moldura narrativa de uma cerveja entre dois amigos. É interessante a gente reparar nisso, porque toda a história pode bem passar de uma lorota dessas que se divide em mesinhas de lata, uma dessas histórias de contar vantagem. Ou seja, pode ser que toda essa história do cara ter ficado rico inventando que falava javanês pode ser uma bela mentira de noitada Fica a quem lê julgar.

O tal do Castelo então nos conta ou inventa que viu o seguinte anúncio: “Precisa-se de um professor de língua javanesa”. Raciocinou, “está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes”. Como estava sem dinheiro, resolve ir à Biblioteca Nacional com ares de conhecedor e começa pela enciclopédia. Mais ou menos como procurar a Ilha de Java na Wikipédia.

O que é interessante no conto é mostrar que, embora o Castelo não saiba javanês, possui todo o arsenal para conseguir ludibriar outras pessoas, pois possui uma casca beletrista em uma época em que a educação formal é para pouca gente. Sabe ir à biblioteca. Sabe consultar a enciclopédia. Sabe copiar o alfabeto. Sabe decifrar minimamente um alfabeto fonético. Sabe inglês e lê em voz alta o início do livro em javanês que lhe estendem. Sabia quem era o príncipe Kulanga, “escritor javanês de muito mérito”.

Castelo vai longe. O sabichão consegue um posto no Consulado. Vai a Europa. Mora em Havana. A história de que seu pai era javanês pegou em todos os lados – “estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané* podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio…”. Embora não vá tão longe assim. O ministro da Secretaria dos Estrangeiros – algo como nosso Itamaraty de hoje – deixa bem claro que, mesmo que Castelo saiba javanês, “o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não presta… O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania.” É bem claro o julgamento racista que fazem do malandro protagonista: mesmo que possa ter um conhecimento considerado extraordinário, não conseguirá subir na carreira por não ser branco.

Lima Barreto, com suas personagens planas em degraus diferentes da selva social, não nos dá um pingo de esperança. O Brasil é um mundo dos homens (só há uma mulher no conto, cuja função é meio ser um elo de sangue entre fortunas), um país de falsos sábios, doutos em falcatruas e os cargos altos mesmo se dão aos brancos, por heranças de terras coloniais e arranjos familiares. A moral da história é um salve-se quem puder mesmo.

Me resumi escrevendo sobre Java, pois sobre outros países anda difícil.

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* Pelo que procurei, “basané” é um termo em francês para designar peles pardas e negras, foi utilizado para designar pessoas marroquinas e árabes, hoje o termo é pejorativo – eu não sei francês, nem javanês, me corrijam. Fiz igual o Castelo, procurei nas enciclopédias.

Ilustração: Albert Cornelis Vreede (1840-1908), uma página em escrita javanesa.

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Para continuar no tema:

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