Como retomar o hábito de leitura?

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Você adorava ler. Mas notou que ultimamente teu volume de leitura diminuiu. Pode ter sido a vida corrida ou mesmo ansiedade, falta de capacidade de se concentrar. Aqui vão dicas de como retomar este hábito que faz bem ao coração.

A queixa é quase a mesma, embora cada pessoa tenha sua voz e seu olhar: “Eu quase não leio mais.” Geralmente acompanhada de algum complemento, “e olha que adorava ler”, “antes lia páginas e páginas”, “nunca gostei muito, mas agora está impossível” e por aí vamos.

Hoje li uma bela e instrutiva thread no Twitter a respeito disso. Imediatamente levantei da cama, tomei uma xícara de café fumegante e aqui estou. Como dar aulas de criação literária é uma das minhas profissões e ouço muito esta queixa, achei que valia à pena rabiscar algo sobre o assunto.

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1. A boa notícia

  • Perceba: talvez você já leia muito.

Se está lendo este post, você certamente possui um hábito de leitura!

Ouço muito o “escrevo pouco”, “leio pouco”. Entretanto se você for analisar o dia da pessoa, encontraremos algumas atividades que você talvez reconheça: esteve em vários fóruns comentando postagens e notícias; leu e postou textos em redes sociais; trabalhou diante da tela de um computador; conferiu mensagens no celular.

O uso da internet está intimamente ligado à leitura. Embora haja cada vez mais navegações que a dispensem (mensagens de voz e vídeos, vide crianças de colo que sabem usar o YouTube melhor que eu), muito da interação é ainda realizada por texto. Há discussões acaloradas, inclusive, se o uso do celular auxiliaria no letramento, a capacidade de ler e compreender textos.

Assim, antes de enxergar o copo meio vazio, observe como está muito cheio: você talvez leia em uma parcela significativa do teu dia. Já parou para pensar?

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2. Você possui um corpo humano

  • Procure ler em horários que teu corpo está descansado, com a cabeça tranquila.

A verdade é inafastável: somos de carne e osso. Precisamos dormir, comer, sorrir, descansar. Se teu cotidiano é extenuante, me parece evidente que teu corpo queira descansar a qualquer oportunidade. O mesmo se aplica se você passa muitas horas lendo textos no celular e computador, os olhos não estariam precisando de um alívio?

Ah, nada melhor para dormir do que um bom livro! Você começa a ler e… teus olhos pesam, teu coração desacelera, as mãos já não sustentam o volume e você pega num sono magnífico. Eu recomendaria aproveitar este sono embalado, seja no transporte público, em casa, na biblioteca. Cochilar também é fabuloso.

Retomar o hábito de leitura está ligado a perceber o que o seu corpo deseja. Um descanso para os olhos? Um cochilo? Água? Um lanche? Se você iniciar a leitura após um dia cansativo, talvez o resultado não seja dos melhores, não é verdade?

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3. Perceber as próprias dificuldades e fortalezas

  • Que tal rabiscar um diário de leitura?

Diários fazem milagres quando se trata de melhorar hábitos. Nada como uma conversa franca consigo para entender o “onde pega”.

Assim, arranje um caderninho ou bloco de notas no celular. Faça uma anotação a cada dia em que tentar ler. Qual foi a maior dificuldade? Como comecei a ler? Qual livro? Como estava meu cansaço? Quais problemas enfrentei no dia? Quais pensamentos atrapalharam? Qual foi a melhor sensação ao ler?

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4. Procure um laço de afeto

  • Leia o mesmo livro que alguma pessoa do teu círculo
  • Expresse tua opinião sobre a leitura
  • Arrisque-se num clube de leitura

A diferença entre a experiência de ler um livro e ler na internet está na forma de conexão com outras pessoas. Na internet, parece que recebemos um retorno o tempo inteiro do que fazemos. Seja um like, uma resposta em texto, um meme. Mesmo a falta de resposta pode ser uma resposta na rede.

Ao ler um livro, temos a sensação de estarmos fazendo algo que não é valorizado ou muito chato, pois não temos este suposto “retorno do calor humano”. Há uma aparência que estamos largados à própria sorte com os próprios pensamentos.

Não irei discutir a percepção do afeto na era da internet, mas creio que aqui reside um dos pontos cruciais para que seja retomado o hábito da leitura. Talvez seja aborrecida esta sensação de estar a sós.

Minha maior recomendação é: procure conexões humanas! Laços de amizade, de cumplicidade, de partilha. Pode ser desafiador, mas são interessantes. Listei três ideias, mas você pode lembrar de outras formas.

Leia o mesmo livro que alguma pessoa do teu círculo social

Ler algo que outras pessoas estão lendo facilita a vida. Você terá com quem trocar impressões, assunto. Pense numa pessoa que você adora. Pergunte o famoso, o quê você está lendo?, o quê você me recomenda? Tenho certeza que irão te recomendar algo especial!

Não procure a competitividade! Não procure ler só para ferrar coleguinha de trabalho, ok?

Também acho bonito abraçar a vulnerabilidade que todos temos e dizer a um grupo de pessoas de confiança: gente, estou com dificuldades em ler um livro. Vocês não querem ler algo comigo? O máximo que acontecerá é dar tudo errado e você voltar, pelo menos, com orgulho da tentativa corajosa.

Expresse tua opinião sobre a leitura

Redes sociais nos incutiram a ideia que temos que comentar tudo que fazemos. Não vou discutir o tema opinionismo na era da internet, mas no caso específico da leitura: se achar que ajuda, compartilhe!

Há muitos sites que funcionam como rede social para quem lê, como Goodreads (aqui há uma lista com várias opções de redes sociais). Mas nada impede de você expressar tua opinião no Twitter, velho Facebook e outros lugares.

Não leia as três primeiras páginas fingindo que leu tudo carimbando com a selfie. Enganar-se não irá ajudar a retomar nenhum hábito, né?

Arrisque-se num clube de leitura

Muito comuns em bibliotecas e livrarias, clubes de leitura facilitam retomar o hábito, pois é uma experiência coletiva! Saber que não é a única pessoa do mundo a ler aquele troço irá certamente ajudar.

No Brasil, temos a maravilhosa iniciativa nacional do Leia Mulheres, há encontros em muitas cidades do país!

Há outros, como o Clube de Leitura da Folha que, neste mês, discutiu o maravilhoso “Os Despossuídos” da Ursula Le Guin: escrevi a resenha crítica para a Ilustríssima sobre este livro que adoro.

Se na tua cidade não existir, nada impede de você formar um!

Para quem estiver em janeiro em São Paulo: em dois sábados, das 11h às 13h, na livraria Tapera Taperá, darei mais um módulo do curso gratuito Romances utópicos e moedas distópicas. Vamos conversar com pessoas convidadas sobre “Neuromancer” do William Gibson (13/01/17) e “Kindred – laços de sangue” da Octavia Butler (20/01). Pode ser um convite à leitura. Detalhes por aqui em breve!

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5. Vamos falar da parte difícil: o celular

  • Observe-se. Note como o uso do celular te afeta

Ao ler um livro, mesmo num Kindle, tudo cessa. As notificações silenciam. Você pode finalmente dedicar toda a tua atenção a um único assunto.

Ao contrário de ser uma bênção e ser atividade relaxante, para muita gente pode ser bastante incômoda esta situação. Bem, quem possui ansiedade alimentada pelo uso constante do celular sabe que se concentrar para ler pode ser um martírio. Até há uma designação para isso: nomofobia (vem do inglês no mobile).

Bem, não demonizemos plataformas. É incrível a revolução tecnológica que assistimos com o uso do celular e creio que a humanidade deverá se calibrar aos poucos para evitar efeitos nefastos.

Minha recomendação é bem simples: observe-se. Note como o uso te afeta.

Se você for muito dependente de rolar com polegares até o fim da vida ou de largar tudo para ler uma mísera notificação, sem pânico. Procure fazer coisas que você adora que não precisam de celular. Caminhar. Encontrar pessoas queridas. Tomar um banho mais longo. Ir dançar. Melhor que dizer “nunca mais farei isso” (que nunca dá certo), tente inserir outras atividades na rotina. Ler pode ser uma, mas não a única.

Se achar que é algo grave, procure ajuda. É muito mais normal do que você imagina. Esta reportagem da BBC é bastante responsável a respeito do tema: Vício em celular chega a consultórios e já preocupa médicos no Brasil, por Renata Moura, BBC Brasil em Londres

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6. Comece aos poucos

  • Que tal recomeçar por contos, poesias e reportagens?

Se você está há anos sem fazer exercício físico, claro que não recomeçará pela maratona. Assim, um conto por vez, uma poesia aqui e ali ou mesmo obras de não-ficção legais, como reportagens e livros sobre comportamento, podem ser excelentes.

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7. Aceite a boa companhia!

  • Carregue o livro contigo.

Uma forma também de melhorar o hábito é ter o livro pertinho. Sempre facilita. Seja em papel ou eletrônicos vão muito bem na bolsa ou mochila.

Adoro o e-books por isso! Maravilhosa a sensação de carregar uma pequena biblioteca de assuntos variados na bolsa. Há sempre um dia no mês em que baixo muitas coisas e depois vou lendo conforme o humor, o tempo. Entre os leitores digitais, além do Kindle, temos o Lev e o Kobo.

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Espero que a reflexão tenha sido útil!

 

Se você chegou até o final do post, uau, você lê mesmo!
Retomar o hábito de leitura é bonito.

Inclusive, faz bem à saúde.

Imagens: O destaque é de wombatarama via Flickr. A segunda fofíssima é da Pioneer Library System, mostrando cães terapeutas que ajudam crianças a gostar de ler na livraria pública Norman West.

 

 

Outras sugestões e ideias:

+ Wikihow: Como Desenvolver seu Hábito pela Leitura

+ Nexo: 7 dicas para transformar a leitura em hábito, por Matheus Moreira

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