Escrita criativa em tempos de crise

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A Laura Mascaro e eu ministramos duas oficinas sobre direitos humanos e criação literária em 2014. Chamava-se “A Narrativa revela o sentido sem cometer o erro de defini-lo”, atividades guiadas pelo pensamento filosófico de Hannah Arendt. A Laura aplicou uma metodologia que julgo genial, inspirada no curso de Arendt Experiências políticas no século XX (ministrado em 1965, o texto é do Celso Lafer). Entrei na equipe mesmo para a prática de criação, o que adoro. Ficou muito feliz por ter participado disso.

Compartilho aqui no blogue alguns aspectos, quem sabe são úteis para outras pesquisas. Pensei na Geruza Zelnys e em outras pessoas que dão aulas de escrita criativa.

Escrevemos a quatro mãos um artigo acadêmico a respeito da experiência, Tornar presente o ausente – a escrita criativa como ferramenta para a reflexão sobre direitos humanos, publicado na Revista Lua Nova.

 

 

Foram duas edições das oficinas. Uma no Centro Universitário Maria Antônia e outra na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (com o inestimável apoio da Academia de Letras). Depois ainda houve uma mesa-redonda no Instituto de Estudos Avançados da USP (fotinha abaixo).

As oficinas tiveram uma procura muito (!) grande, o que sempre dá certo aperto no coração, pois vc percebe como faltam opções de cursos que estimulem a criação literária em ambiente universitário na cidade. Quem procurou o curso foi gente que trabalha com Direito, pesquisa ou dá aula, com destaque a instituições públicas. Apareceram ainda muitos professores da rede pública. Ou seja, pessoas familiarizadas com o discurso sobre direitos humanos e que adoravam ler e escrever.

Entretanto, em uma mesma turma, podíamos encontrar pessoas com hábitos de leitura muito diferentes! Havia gente que não escrevia algo autoral nem em diário. Outras pessoas só liam jornais, artigos científicos, relatórios. Interessante.

Após o módulo teórico a respeito do pensamento da Arendt, o módulo criativo se iniciava com bastante leitura e discussão. O exercício central: escrever. Cada uma das pessoas recebia uma reportagem simples a respeito de uma situação envolvendo alguma violação de direitos humanos. Diante do panorama, o exercício de criação foi planejado prioritariamente como uma incitação às faculdades de pensar e julgar – não foram enfatizados aspectos da criação pertencentes ao campo específico da literatura, como a forma literária e seu aprimoramento. O essencial era o fazer, cumprir a jornada.

A proposta então era produzir um texto que dialogasse com aquele episódio. Vislumbrar outros pontos de vista possíveis, sair em buscar de novos olhares, contemplando a própria proposta do curso original de Arendt.

Fiquei pensando nisso agora na Páscoa. Nas palavras da Laura, a Hannah Arendt definia momentos de crise (“when the chips are down”) como aqueles em que os padrões morais e religiosos são colocados à prova, e não se pode mais depositar confiança nas regras e padrões pelos quais vivemos para pautar nossas ações. Daí achei que era um bom momento de trazer isto aqui.

Escrever é uma forma de organizar os próprios afetos e sair em visita.
(bateu saudades da Laura).

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Mesa-redonda “Memória, arte e educação em direitos humanos” – da esq. a Laura, eu e o Roberto Zular (nov/2014).

Referência: Tornar presente o ausente – a escrita criativa como ferramenta para a reflexão sobre direitos humanos, Ana Rüsche e Laura Mascaro, Lua Nova, São Paulo, 96: 71-87, 2015.

 

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One Comment

  1. Pilar Bu
    29 de março de 2016 at 16:03

    Ana, que memória incrível vc me trouxe. Essa oficina foi maravilhosa. Amei muito. Escrevi o primeiro conto razoavelmente ok da minha vida e saí de lá flutuando pelas coisas boas que aprendi. Que carinho. Que coração

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