O ensaio, a vida acadêmica e formas de compartilhar conhecimento

Hoje me perdi lendo artigos do Jorge Larrosa. Contaminação feita Dolores Galindo. Fiquei meio apaixonada. O cara defende com unhas, dentes e muitas boas palavras a necessidade de se produzir o ensaio em âmbito acadêmico.

Qualquer pessoa que passa por uma pós-graduação, elaboração de anteprojeto, relatório de pesquisa brasileiros ouviria a Jorge-Sereia-Larrosa. Afinal de contas, nada é tão engessado e sufocante quanto seguir alguns esquemas pré-fabricados e ditados por sedimentos e sedimentos de regras, conselhos, estipulações que nem a gente sabe de onde saíram, muito menos quem nos aconselha. O cotidiano do mundo acadêmico.

A argumentação do Larrosa é impecável e muito bonita. Acessível. Gostaria que você lesse. Agradeça à Dolores depois. Sugiro:

A Operação Ensaio: sobre o ensaiar e o ensaiar-se no pensamento, na escrita e na vida (2004)

O ensaio e a escrita acadêmica (2003)

Ah, faço apenas notar que o Jorge Larrosa dedica-se ironicamente, em seu O ensaio e a escrita acadêmica, ao comentário de um texto do Adorno, quem não é exatamente conhecido por escrever de forma, hum, acessível, para dizer o óbvio, hehe. Além do Adorno ser o que há de mais canônico nesta vida. Enfim, é muito difícil quebrar hierarquias. Mesmo para o Jorge Larrosa. Entendo.

Bom, longe de mim de ensaiar sobre Larossa. Matutando aqui. Mentira, farei um breve ensaio sim. Até porque o ensaio é uma excelente forma literária para se tratar um tema. Mas não é a única. Daí pensei em escrever este post sobre formas literárias que querem transmitir um conhecimento.

ensaiar a cor 3

“Ensaiar a cor” é o nome desta imagem de Francisco Santos.

Certos ensaios – a forma que corporifica a crise com a autoridade

O ensaio na sua forma contemporânea surge de um questionamento sobre como se forma a autoridade nos meios de produção de conhecimento. A universidade segue sendo o lugar de poucos acessos. Não é coincidência que o Jorge Marrosa discuta o tema da autoridade, da hierarquia, do poder – suas referências são Adorno, Foucault, gente que passou boa parte da obra pensando nesses temas (aliás, se isto não fosse um mero post em blog, academicamente estava fritinha por colocar sem nem muito pudor um Adorno e um Foucault separados somente por uma vírgula sem mais explicação).

Se você questiona quem manda, quais as regras do mundo, que concentra o poder é razoável que a forma pela qual você irá conduzir seu pensamento se modifique. A forma literária precisa acompanhar o conteúdo que carrega.

Um texto precisa tanto de forma quanto de conteúdo. Ou seja, é necessário que a gente escolha uma forma para saber se o pão ficará com cara de pão ou de rosquinha. Embora a massa possa ser a mesma (você eventualmente pode fazer um híbrido, um bagel, que tanbém é delicioso).

Assim, este ensaio contemporâneo nasce de uma determinação: para pensarmos diferente, precisamos escrever de forma diferente. Nossa acumulação de questões, sentimentos e assuntos simplesmente não cabe na forma da tese, da dissertação. Precisamos de algo além. Ponto pro ensaio.

O ensaio é gênero ocidental avoengo. Muito antigo. Muito mais que o romance. Quando poderíamos fazer um marco, século XVI? Se te contar que é deste gênero literário que irá sair o romance que conhecemos hoje, você acreditaria? Bem, não é tão simples assim, na mistura ainda entrará um monte de coisas para o romance chegar às prateleiras da Amazon. Entretanto, se você pensa no “Cândido” de Voltaire, hum, olha aí o híbrido: há muitas personagens, Cândido, Cunegundes, Dr. Pangloss, muita ação, o Cândido apronta das suas, embora Voltaire queira mesmo debater ideias e não simplesmente contar uma história.

A trajetória de um texto ensaístico, se eu puder resumir, passa por deixar claro o percurso do pensamento. A anotação na margem do livro. O comentário sincero. O ensaio procura marcar todo o caminho pelo qual algum argumento ou pensamento foi forjado. Ao mesmo tempo que você estrutura o teu argumento e tuas dúvidas, por outro lado você sedimenta uma verdade, um conhecimento. No texto do Larrosa, “A operação ensaio”, ele gosta desta característica, cito:

“Poder-se-ia dizer, talvez, que o ensaio é o modo experimental do pensamento, o modo experimental de uma escrita que ainda pretende ser uma escrita pensante, pensativa, que ainda se produz como uma escrita que dá o que pensar; e o modo experimental, por último, da vida, de uma forma de vida que não renuncia a uma constante reflexão sobre si mesma, a uma permanente metamorfose.”

Assim, nesta forma literária, você não enuncia um fato, um dado científico. Você enunciaria um caminho pelo qual passou. Uma anotação de rota. E os motivos pelos quais esta rota poderia ser valiosa.

Sobre aspectos formais, conforme o Jorge Larrosa frisa, há o uso da primeira pessoa, não como usa um parecerista, um legista, que deve atestar algo. A primeira pessoa é utilizada como quem sugere um debate: “O ensaio aparece com o eu, com o sujeito, com o sujeito moderno, mas não em sua força, em seu orgulho, mas em sua precariedade, em sua relatividade, em sua contingência.”

Faço aqui o alerta da falsa modéstia. Nada passa mais antipatia a quem lê que você fingir que somente quer comentar algo, quando na realidade possui muita certeza do que diz e não irá mudar de posição. Espero que eu não soe assim para você.

Por fim, aqui venho marcar meu ponto antipático com as ideias do Larrosa. Acredito que há outras formas literárias que podem transmitir conhecimento de forma clara, democrática e aberta. Quando o Jorge Larrosa coloca “o ensaio como modo de escrita, de pensamento e de vida, no qual o sujeito faz a experiência de sua própria contingência e de sua própria transformação” parece que é o melhor gênero literário do mundo! Estou exagerando para finalidades didáticas, mas creio do fundo do meu ser que você opte por uma forma de escrita não apenas por gosto/inclinação, mas para que ela te sirva.

Quando eu optaria por um ensaio?

Quando minha pesquisa passa por uma dúvida. A própria colocação da dúvida pode me levar a um outro lugar de raciocínio. Há aqui uma questão moral escondida: realmente se colocar em dúvida. Escutar outras partes. Coloca-se em suspeita. Olhar seu argumento por muitos ângulos. Senão, pouco adianta escolher uma forma que propicia a dúvida e no final fazer o que qualquer parecer científico faz perfeitamente bem: estabelecer fatos, opiniões e verdades.

Quando a pesquisa expressa um desacordo com autoridades e regras e/ou ainda possui um caráter experimental. Estudos que trabalham o tema da hierarquia, autoridade, poder seriam muito bem trabalhados na forma ensaística, considerando que brotam nos dias de hoje deste berço.

Quando em diálogo com produções ensaísticas. Se você dialoga com pessoas que escrevem no gênero ensaístico, não fica nada mal responder em ensaio. Afinal de contas, se recebo uma carta é educado enviar uma carta de volta.

Quando eu quiser. Sim, se eu achar que o ensaio é melhor forma literária para trabalhar determinada questão… go ahead!

Gostaria apenas de lembrar que há outras formas literárias no horizonte. Talvez até menos valorizadas que o ensaio, pois existem fora da academia, naquele limbo extra-muros, que pelo menos tem seu afã de sedução.

Uma destas formas literárias é o velho (que horror, nada desta discussão é novo!) texto de divulgação científica. Forma literária que visa transmitir conhecimento de forma menos autoritária e a um público mais amplo.

Sim, uma revista de circulação geral, um blogue, uma publicação de autogestão, um livro. Texto que pode adotar muitas liberdades, embora tenha que utilizar linguagem pouco técnica, evitar jargão. O difícil, neste caso, é pular o muro. Sair do recôndito acadêmico para o mundo. Sei que não é fácil, muito mais para quem depende do conhecimento acadêmico como profissão. No entanto, há um segredinho: não há muro nesse mundo que não tenha sido desafiado.

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