Donizete Galvão

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O calor sem vento, a tarde sem chuva. Na pequena correria, entre chegar e já sair, tento dizer à minha mãe. Tem coisas que não dá para não contar para a mãe, fica ali martelando o peito. Sabe o Donizete? Minha mãe responde, claro. E então lhe conto. Minha mãe fica muito mais do que tristíssima. Aquele poeta da pedra? Sim, esse, mãe. E ela procura o livro do Doni que tem guardado. As pessoas guardam livros de poesia para poderem recorrer aos livros de poesia guardados. Minha mãe frisa que tem o livro ali, isto é, o exemplar dela, independente dos meus não-sei-quantos-queridos-espécimes-de-poesia. Minha mãe se apóia na quina da parede.

A notícia veio via whatsup. Uma forma bem pouco usual, confesso, de receber notícias tristes. Ao menos, veio pela Fran, pessoa querida. A Fran comprou a antologia “É que os Hussardos chegam hoje”, onde constam poemas do Doni. A Fran também é de Borda da Mata, achou lindo aquilo e logo veio me perguntar sobre, descobriu quem era o Donizete Galvão. E ontem os sinos de Borda estava dobrando pelo poeta. E ela me mandou o whatsup.

Além desses minúsculos relatos, sei bem pouco como continuar. Lembro que quis telefonar para o Dirceu, sempre falamos da poesia do Doni quanto estávamos juntos. Mas não tenho números atualizados e mandar um e-mail é triste demais. Notícia que tira o chão. Afinal, devo ao Doni muita coisa

: aprendi a ler muita poesia por ter lido o Donizete Galvão. Por exemplo, certa feita tive que preparar uma aula sobre o Claro Enigma do Drummond – ia cair na prova do Rio Branco e os alunos concurseiros enlouqueciam com a obra. À época, estava bem perdida, com alguns ensaios críticos xerocados na Biblioteca da FFLCH que não me davam senão vagos dados editoriais. Lembro que parei com aquela insistência vã e peguei o Mundo Mudo, reli o livro inteiro numa tacada. De alguma forma, aquela leitura foi muito mais eficaz do que os ensaios críticos xerocados, um bálsamo não explicar o que apenas tem forma e sentido. Claro Enigma passou adentro e se tornou um de meus livros prediletos do Drummond.

: conheci boa parte dos poetas contemporâneos por seu intermédio. Alegre, festivo, pela sua vontade em reunir pessoas num sábado de boteco, numa pizzaria, numa festa junina (aprendi a fazer canjiquinha depois de uma), isso de construir uma certa São Paulo mais afetuosa. As piadinhas rápidas, os comentários ligeiros e o tão grande amor por Minas Gerais.

 

São apenas pequenos exemplos.

Queria é agradecer por tudo.

Principalmente pelos poemas.

Limpos, sonoros, exatos.

Deixo vcs com as palavras do querido Dirceu, respondendo o telefonema que não fiz pelo peso do triste: “e é à família de Donizete que vão os meus sentimentos, desejando a força possível a um momento como esse. Sinto com vocês”.

Meus melhores sentimentos. Sentimos com vocês.

 

Donizete Galvão (1955 – 2014) na Revista Modo de Usar & Co.

Pádua Fernandes escreve em seu blogue: “Íntimo e desconcertante: Donizete Galvão (1955-2014)”

Imagem da Folha: Poeta mineiro Donizete Galvão morre aos 59 anos em São Paulo. Crédito: Matuiti Mayezo.

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