devanear

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[1] Este post começou com um texto que não escrevi. Meu plano era descrever o que seria um relato sobre uma experiência de atenção plena com a comida. O caso é que, embora tenha conseguido lá fazer a tal experiência, fiquei com uma imensa dificuldade de escrever sobre.

(Pra vc não morrer de curiosidade, faço um resumo. Trata-se de um exercício muito simples. Com uma dificuldade imensa pra quem vive nos dias corridos: se alimentar observando a própria fome. Os próprios desejos do corpo. Quem ouve o próprio corpo hoje?)

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[2] Outro assunto. Não sei se você sofre disso, mas tenho necessidade física de devanear. Não é algo que perceba. Notei esse sistema de fuga há bem pouco tempo. Algo que, no primário, a professora de matemática devia nomear de “cabeça no mundo da lua”. Algo que colegas da adolescência diziam “cê tá viajando”.

Devanear é digno. Algo como um pavão dentro da cabeça. Momento em que todas as cartas estão abertas e expostas. E paradas, quase flutuando. Muitos olhos e plumas. Em algum outro lugar.

Quando passeio com o Canek. No momento em que o passeio realmente se inicia, numa ladeirinha que há perto de casa, a cabeça desengata. Como um foguete que larga sua carga ao decolar. Percebi isso, pois o cão puxa demais a coleira neste trecho. Verdade. Nem reparo muito o que estou fazendo ali, naqueles minutinhos. Depois a atenção retorna. Claro que posso dar um olá para alguém, parar e conversar, daí a prática do devaneio não se aplica.

Quando caminho. Boto o fone e ando distâncias razoáveis todos os dias para ir ao trabalho, fazer pequenas coisas. Sim, enxergo. Paro nos faróis, observo as flores caídas, os grafites que se alternam. O céu e as nuvens. Mas há um momento em que esqueço. Dura relativamente bastante. Caminho algures.

Quando me alimento. Geralmente, presto muita atenção no que estou comendo durante os primeiros minutos. Me alegro quando sento à mesa, pronta para jantar um prato fumegante que preparei. Com esmero, jogo americano, garfo, faca, guardanapo. Depois de alguns minutos, minha cabeça estará bem longe dali. Um pavão num terreiro intergaláctico. Aberta, como uma mão cheia de cartas e olhos sobre vai se saber lá o quê.

 

[3] Percebi isso do devanear por conta de alguns exercícios da Carol, nutricionista. Os tais exercícios de atenção plena [1]. Possuo uma imensa dificuldade de exercer atenção plena em hábitos que estão associados a este devaneio.

O hábito de comer. Parte da graça é exatamente o devanear. Principalmente quando como sozinha. São gatilhos.

Não sei quando começa um e quanto termina. Acontece.

Daí pensei que escrever me ajudasse nos exercícios de atenção plena. Escrever e publicar.

Publicar é que te coloca esse peso do olhar do outro, força a ter qualquer rigor, qualquer estratégia.

Escrever é um ato bastante completo: exige devanear, exige controlar.

Estar aqui.

 

Imagens: retirei daqui, mas também não há muito como saber quem são as pessoas retratadas & pavoneadas.

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