Três ideias para começar a redigir uma crítica

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Escrevo hoje para quem escreve crítica: pretende elaborar uma crítica sobre romances, contos, poesia. A árdua tarefa da crítica literária. Quem se prepara para fazer um artigo, um post caprichado, uma resenha extensa, até mesmo uma pós-graduação a respeito de um conjunto de textos.

mais um post da série: para quem escreve

Será que estou fazendo uma colagem de opiniões que li sem acrescentar nada?
Será que as pessoas irão achar interessante?
Será que esta droga de crítica vai funcionar?

Bom, não irei conseguirei alterar tuas inseguranças ou excesso de confiança (o mais perigoso, hehe), mas aí vão três considerações que podem ajudar antes de começar a redigir o texto.

Parto do princípio que você irá esboçar antes o texto.
Esboços e rascunhos: como usar esta ferramenta melhor

Ou seja, alinhavar tua argumentação em um rascunho sólido antes de se desdobrar na tarefa de redigir efetivamente a crítica.

Não comentarei textos que pendem aos polos do gostei e não gostei, que diz mais sobre quem profere a crítica do que a respeito do texto. Veja, estas opiniões são muito úteis quando precisamos de indicações de pessoas que respeitamos. Entretanto, hoje queria dar dicas a quem quer ou precisa escrever um texto no qual quer trazer outros parâmetros, além do julgamento pessoal.

Por fim, não vou comentar a crítica que somente aponta o dedo. Deixemos esta capacidade às crianças que merecem se defender. Me refiro à tarefa de analisar um texto e dizer algo substancioso a respeito.

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A boa crítica ilumina como um sol

“A boa crítica tem o poder de tirar um novo livro de um livro que já lemos.” Não sei se escutei esta ideia de minha antiga orientadora, mas é um parâmetro útil. Em outras palavras, uma boa crítica deve contar uma história ou tecer uma argumentação que não estava ali tão clara para quem leu o romance, conto ou poesia sem muita pretensão. Deve dar luz a algo que você não tenha visto antes. Ou seja, irá ligar pontos que outras pessoas nem teriam ligado, aspectos que passariam despercebidos.

Aqui se definem muito bem os propósitos da crítica: além de apresentar o que já foi apresentado irá além, irá nos trazer um presente. Algo que sem a análise não estaria claro antes.

Assim, ao redigir o teu esboço, seria legal se perguntar:

Qual é o presente que entregarei com este texto?
Em meu esboço, minha argumentação é construída como um caminho para o caça-ao-tesouro?
Ligo pontos que as pessoas que leram sem se deter não ligaram?
[Listar algo que faço de incrível ao analisar meu objeto]

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A boa crítica ilumina como um sol: deixa a outra metade do planeta no escuro

A crítica é redigida por uma pessoa de carne e osso. Dentro de sua história, idioma, roupas, hábitos, privilégios, vícios. O texto, objeto da crítica, também. Assim, não se espante que mesmo a melhor crítica não dará conta de explicar o objeto completamente. Sempre haverá partes que não conseguirá tocar, ver, enxergar.

Na relação de um sol e um planeta, a crítica pode iluminar lindamente uma das faces do planeta, a face em que será dia. Enquanto isso, no outro lado, será sempre noite. É normal.

O discurso acadêmico tende nos pedir perfeccionismos extremados como “nesta tese você tem que dar conta de analisar todos os aspectos do romance x”. Bem, você analisará o melhor que puder dentro de tua perspectiva, dentro de teu campo de estudo, dentro do teu momento histórico. Que irá iluminar lindamente o objeto de estudo para outras pessoas. Mas não se aborreça se houver áreas escuras. Há variantes que não dependem de nosso esforço pessoal. Inclusive, a alternância é fundamental para equilibrar pesquisas.

Em lugar de se aborrecer ou se frustrar com a limitação, o ideal é entender qual tua maior capacidade, onde poderá brilhar, onde poderá contribuir mais. E descansar a respeito de pontos que as pessoas no futuro poderão encontrar. Lembra que uma pesquisa é um caminho, talvez seja muito útil, mesmo a quem discordar diametralmente de você. Para discordar de um argumento é necessário que o argumento tenha sigo construído antes, não?

No teu esboço, seria legal deixar anotadas as respostas às perguntas:

Qual minha maior capacidade?
Onde posso contribuir melhor?
De qualquer forma minha história pessoal auxilia na pesquisa?
Quais aspectos que não conseguirei analisar e tudo bem?

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Motivações: um sol pode ser somente uma mexerica

Por fim, respirar sempre facilita. Se você decidiu analisar um romance, um conto, um poema, um livro, admita: este objeto de crítica te fisga.

Não paramos para refletir a respeito de coisas que não nos interessam, verdade? Tempo é algo preciso, o que se dirá do tempo para a reflexão. Mesmo quando temos a obrigação de vomitar a primeira coisa em tantos caracteres para um trabalho de faculdade.

Agora de qual maneira aquilo de te fisga?
Obsessão? Por idolatria, paixão?
Obrigação chata? Raiva?
É uma moda, está todo mundo falando? Competir com coleguinha?
Por ser uma pesquisa longa que você já realizou?
[Insira outras aqui]

Saber quais nossas motivações internas e as anotar no esboço do texto – sim, anotar de forma bem clara em algumas frases – quais nossos motivos auxilia muito. Até para repensar se são genuínas, se não merecem ser repensadas, se merecem o esforço.

Durante o processo de elaborar uma crítica, podemos passar de paixão a tédio; de raiva a respeito; de pesquisa longa a série de indagações. Podemos reafirmar ideias iniciais, nos nutrir de dúvidas, apaixonar-se novamente. Há muitas possibilidades. Até mesmo desistir de criticar.

Se você descasca a mexerica das motivações, pode ser que ache gomos docinhos ou secos dentro. Não há muito como adivinhar sem poluir com aquele cheiro cítrico todo o ambiente mental em volta. A não ser que você seja um especialista em criticar as citrus reticulata.

Ter ciência das próprias emoções e propósitos nos auxilia para ver em que medida o texto pode se sair defensivo ou rancoroso. A gente tem a impressão que quem critica nunca tem paixão, não é? Ledo engano. Poucos processos são mais apaixonados e vibrantes de subjetividade. Honestidade é fundamental.

Outra pergunta legal sobre motivação para você anotar a resposta em teu esboço:

Qual o motivo de escrever a crítica?
Valorizar o objeto de estudo?
Deixar as pessoas pensativas? Inspirar?
Passar numa disciplina? Rechear o lattes?
Provocar raciocínio crítico?
Contribuir para um campo de estudo?
[Insira outras aqui]

As respostas podem ser valiosas para te manter no rumo quando bater o desânimo.
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A crítica é um convite

Por fim, vamos lembrar que a crítica é um convite ao pensar. Um convite para passearmos por meandros mentais, refazer passos dos argumentos. É uma tarefa árdua, mas traz muita satisfação e partilha. Um convite a ler outras pessoas e em companhia. Muito do que precisamos nos tempos de hoje.

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Espero que as dicas tenham sido úteis!
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+ Como elaborar uma resenha crítica. Embora seja voltado a análise de textos teóricos mais gerais, se você não sabe como iniciar um texto ou nunca redigiu algo parecido antes, este post será bastante útil.

+ Como Escrever uma Análise Crítica. Este WikiHow com imagens pode trazer alguns insights interessantes ao teu esboço e também ajudar a esclarecer quais pontos você precisaria ou não pesquisar ou refletir melhor antes.

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