O milagre do diabo, um causo para falar de Antonio Candido

7200108Antonio Candido. Com sua ida fenece um tempo. Uma passagem de eras. Me emocionei muito com o texto da Raquel Parrine para a Asymtote [em inglês], na qual comenta os efeitos da morte de Candido. What to do next? Como se pode fazer a literatura relevante uma vez mais nesses dias?

Queria deixar algo do Candido por aqui.
Nem vou dizer o quanto me ensinou ou formatou minha maneira de enxergar o mundo e a literatura.

Como estava refletindo sobre ensaio esses dias mesmo, resolvi separar um causo. Isso, um causo que nem do Candido é, mas ele transcreveu e organizou. Contado por Nhô Roque Lamou. O texto retirei de um trabalho menos comentado, duma época ainda em que oscilava entre a sociologia e a literatura, até por isso menos lida: “Os parceiros do Rio Bonito – estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida”.

A respeito da forma, o texto é interessante, pois mescla reflexão, observação, análise científica propriamente dita. Pode ser bem inspirador, se a gente procura outros rumos para a escrita do texto acadêmico. Não sou maluca, até achei quem concorde comigo – Luiz Antonio C. Santos, quando discute a radicalidade da obra, refere-se “à contribuição formal, em que se destaca uma leve arquitetura da palavra, a opção clara pela simplicidade, pelo princípio da economia de dicção. Impressiona que, sem abrir mão da utilização rigorosa dos conceitos da antropologia e da sociologia (ou talvez por isso mesmo), Candido jamais submete o leitor a uma carga pesada”.

Sei que o texto foi apresentado como tese de doutoramento em Ciências Sociais na FFLCH, onde Antonio Candido foi por 16 anos Assistente de Sociologia. Pena que estou longe da querida biblioteca Florestan Fernandes, pois gostaria de saber exatamente qual foi o texto lido pela banca, pois a edição da Ouro sobre Azul ainda recheou a obra com material fotográfico e anotações. De qualquer maneira, é um texto surpreendente pela forma que trata os materiais discutidos.

(se alguém mais souber esses detalhes editoriais, agradeço)

Dos obituários que li sobre o Candido esses dias, muitas apontam como olhou a crítica e literatura europeia. Citam Proust. Citam seu refinamento. Se não é que desfilam um enfadonho “como conheci Antonio Candido”.

Daí decidi ir para outra direção e separar “O milagre do diabo” para você, pois isso é um pouco o Candido para mim. Um Antonio Candido verdinho e cheio de escuta, cheio das curiosidades. Alguém que dá o tostão ao santo e dá o tostão ao diabo. Embora seja o diabo que faça o milagre. Não me interprete mal, veja. Tenho um carinho gigante pelo cara. Por isso mesmo, não podia deixar de fazer minha parte da justiça.

Queria dedicar o post à Carolina Serra Azul.

nho-roque

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Crédito da foto do Antonio Candido sorrindo: Guilherme Maranhão

+ Candido’s death has engendered a crisis of heritage and legacy, Brazilian Academic Raquel Parrine remembers Antonio Candido, 1918-2017

+ A radicalidade de “Os parceiros do Rio Bonito”, Luiz Antonio C. Santos

+ Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido, completa 50 anos de publicação

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