Algoritmo antrustião: o crédito social e você

Share

A Wired publicou hoje a matéria In China, a Three-Digit Score Could Dictate Your Place in Society da Mara Hvistendahl, sobre como o crescente uso de pagamentos por celular na China possibilita rastrear todos os teus movimentos. Com estes dados, um algoritmo te dá uma nota, três dígitos, teu crédito social, número que dita o teu lugar na sociedade.

Diário de campo: observações a respeito de ficção e crédito social.

.

“Crédito social”, velha nova forma de mensurar pessoas

“Crédito social” é uma coisa que você conhece e experimenta. Em voga em cidades pequenas, é aquela avaliação rápida de rabo de olho e saber se determinada pessoa é “confiável” ou não, dentro dos jogos de poder locais, eivada de preconceitos e pré-julgamentos. Não é à toa que há tantas obras literárias agradecendo a possibilidade de anonimato nas grandes cidades! Um alívio não ter a vida controlada assim. Em voga em corporações e ambiente de trabalho, a famosa rede peão que te informa na pausa do cafezinho se determinada pessoa da outra equipe é “legal” ou não.

A diferença é que agora o aplicativo quer te atribuir o “crédito social”. Se antes você podia negociar com a fofoca ou assumir a rebeldia, as empresas cortaram a possibilidade da conversa mole.

É como saber como você está com nome sujo no SPC ou SERASA, com uma grande diferença: não somente valora a questão da grana (quanto dinheiro você possui à disposição), mas ainda calculando tuas características morais (quais comportamentos “desejáveis” você pratica). Nunca esquece de nada que você tenha feito.

O uso dos aplicativos Alipay e WeChat Pay chineses fazem inveja à Amazon: permitem que você possa fazer compras, pagar cafés, pedir um serviço de motorista, conversar com amigos e ter contatos, tudo no mesmo aplicativo. Para o desespero do Silicon Valley, a China lidera a corrida na extinção o dinheiro em notas. Mesmo nas barraquinhas de comida de rua, basta apontar a câmera do celular para o código e o pagamento está feito.

Uma junção de vários aplicativos em um único, com uma concentração excepcional de informações sobre tua vida. Seria como se o Google tivesse engolido a maquininha do PagSeguro, o Facebook, o Uber, o Whatsapp, o Bradesco, o Itaú, a UOL, Youtube, Netflix e a Amazon.

O resultado é que este todo-poderoso aplicativo consegue, por meio de seu algoritmo, te dar uma pontuação. Uma nota. O teu crédito social.

Você pode pagar ainda por reconhecimento facial: sorrindo.

.

Quais os dez mandamento do algoritmo?

Segundo a reportagem da Wired, o ranking avalia moralmente o que você faz: os tipo de compras que realizou, quantas horas jogou videogame. Só que os critérios são meio misteriosos. Quando Moisés trouxe as tábuas de pedra, pelo menos tornou claras públicas as regras do jogo.

Não para por aí. O algoritmo relaciona ainda suas amizades. Se você é amigo de uma pessoa com ranking baixo, tua nota também cai. Você conhece isso da cidade pequena, das amizades na escola, de quem puxa o saco no trabalho. Só que agora tudo ocorre de forma eletrônica, controlada pelo algoritmo.

Cena de "Nosedive", Black Mirror, com as pessoas avaliando constantemente umas às outras.

Cena de “Nosedive”, Black Mirror, com as pessoas avaliando constantemente umas às outras.

É exatamente o tema de meu episódio favorito de Black Mirror, Nosedive (Queda Livre), dir. de Joe Wright, 2016: a avaliação social de alguém influencia sua própria vida, impedindo de conseguir alugar uma casa, viajar. Assim, estar em contato com alguém “bem avaliado” te ajuda. No episódio, uma jovem obcecada por aumentar sua avaliação, conduta que seu meio valora como positiva, faz de tudo para aumentar sua pontuação, inclusive, reatar a amizade com uma pessoa que detesta. Não pode acabar bem.

Na matéria da Wired, a repórter não possui um bom score do aplicativo chinês. Para alterar a situação, começa a solicitar amizade a seus contatos do celular. Somente seis pessoas aceitaram. Um dos amigos fora professor na Inglaterra e provavelmente era um dos contatos mais ricos que ela possuía em Xangai. Um outro era um alfaiate, que vivia com sua família em um cômodo humilde em uma casa deteriorada. Será que o alfaiate iria impactar a nota da repórter? Será que a própria repórter, com sua nota baixa, iria levar ambos ao buraco?

A China é um espelho para o futuro.

.

Imagina isso no Brasil

Fora os escritórios de crédito que já existem, SERASA, SPC, não me parece nenhum papo muito futurista. Dá para sentir avaliações assim hoje no Brasil se você utiliza o Uber, que pontua tanto motorista quanto passageiro. Uma vez, um motorista comentou comigo que “ficava chateado que, por mais que fizesse tudo certo, nunca recebia uma boa avaliação”. Fico pensando qual o motivo da crueldade paulistana… racismo, descontar no próximo as frustrações da vida?, não sei, não tenho acesso aos dados.

Mesmo o Facebook me cobra que responda qualquer mensagem que chega em minha página, sob pena de piorar meu ranking de respostas. Difícil é argumentar com o algoritmo, entidade altiva que nunca recebeu mensagens com buquês não-solicitados seguidamente no inbox.

Por outro lado, lembro da Karla, padaria querida perto de casa, que até hoje se nega orgulhosamente a trabalhar com qualquer forma de pagamento que não seja dinheiro vivo. Uma atitude que me irrita, mas começo a vislumbrar um traço de resistência nisso.

Ou o amigo amado que nunca teve celular e nem pretende. Aposto que o algoritmo resolverá e lhe atribuirá uma nota aleatória (nem o taguearei no post para não piorar a avaliação).

Ou das gambiarras que estão no sangue do Terceiro Mundo, pois a precariedade faz com que a criatividade seja sempre semeada para resolver coisas simples.

Agora, imagina se fosse uma junta de pessoas de certa São Paulo quem estabelecesse as condutas favoráveis do algoritmo. Comprar a legging do Romero Britto daria alguma vantagem? Selfie com a camiseta polo da Ralph Lauren com o logotipo aumentado do cara no cavalo? Utilizar mais dourados? O algoritmo se horrorizaria ao ver que gasto mais dinheiro em livros do que em roupas? Que gasto mais com ração do que com salão de beleza? Certamente irá me punir pela falta de exercícios físicos programados.

Perguntas que logo mais saberemos as respostas. Ou não.
Ah, sou uma escritora. Não levem minhas impressões a sério.

.
+ Artigo mencionado na Wired, In China, a Three-Digit Score Could Dictate Your Place in Society, por Mara Hvistendahl

+ O “Crédito Social” da China: Uma gamificação da sociedade – Parte 1 por Carlos Eduardo da Silva

+ Artigo acadêmico: Entendendo o guanxi e a sua influência nas relações internacionais. Por Janaina Mortari Schiavini, Flavia Luciane Scherer e Daniel Arruda Coronel. Trecho do resumo: “Enquanto “o que você sabe” é valorizado na cultura ocidental, na China a ênfase está em “quem você conhece”, ou seja, nas conexões sociais com autoridades e outros indivíduos. Este estudo tem como objetivo proporcionar um esclarecimento teórico sobre o que é guanxi, evidenciando as suas origens na China.”

 

Share

Related Posts

Follow on Feedly