a cidade mais feia do mundo

Maiara querida,

Descobri alguns motivos para minha insistência em enviar cartas por meio de blogue. Por isso te escolhi. Além de potencializar o sentimento de debutante literário (hehe), temos a certeza que o destinatário não será um leitor pré-determinado. Sim, a antiqüíssima idéia do solilóquio do Felipe (que não há diálogos nesse mundo, apenas monólogos solitários) ou mesmo o excelente post do Alan, que a esmagadora maioria dos que te lê já sabe tudo o que irão encontrar antes mesmo de deitarem os olhos no texto.

Talvez admitir ao leitor a tarefa da criação literária seja a única verdade possível. Aqui só há espaços em branco. O contrário seria uma página negra com letras em branco e isso é o céu estrelado. Eu vejo invariavelmente uma tela branca.

O coração diz que há possibilidades em algum lugar. Enfim, por isso escrevo missivas aos fill-in-the-blanks.

E vc me mandou um e-mail lindo narrando seu alvorecer entre o ânus da velha fábrica ventila a estação de trem. Rabisquei esse verso apressadamente, porque chegava à Estação Presidente Altino. Ainda precisaria entrar na vã, cujo ponto fica exatamente na divisa de São Paulo com Osasco; precisaria descer na Avenida Dracena e andar pela ruazinha de terra que atravessa a favela”. Ainda narra como seguiu pela sua manhã na editora. Porque a gente mora na cidade mais feia do mundo. Por isso existe tanto espaço em branco nessa página, para vc ler que não, não, por favor, que há outras cidadezinhas aqui dentro, há “mais de dez filhotes de cachorro vira-lata”, “há um cavalo e um potro”, “há dois botecos e uma loja de doces”.

Mas é sim a mais feia do mundo. Pedi fotos ao Beto, que fez uma excursão ontem a um dos corações da cidade. Quando os rios se encontram, que não são rios, são pastosidades, a Marginal Pinheiros com a Tietê, ipirangas com são-joões, a barragem do DAEE. Ali as dragas começaram a escavar e encontraram tantos cadáveres. Afundam suas histórias desaparecidas. Que há ativistas cabeludos que se atiram, banham-se neste ganges do fim do mundo. Que há peixes, tão esquecidos em suas memórias de 2 min que respiram ali. Eu vejo capivaras e garças embalada nas linhas da CPTM, vidas selvagens invisíveis à National Geographics.

“Tirar um tempinho do dia para escrever e-mails tem sido um luxo, nos últimos tempos”. Ai, minha querida. Penso ainda numa mensagem de texto tua que não respondi. Estava dormindo, o alarme das 5h que me contou. E por incrível que pareça, reli o celular embarcada nessas linhas, que são uma mão aberta, com destinos rotos indecifráveis. Como todo esse branco que deixo respeitosamente para vc, astrólogas de páginas vazias.

O meu carinho, Maiara linda, um bom dia.

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10 Comments

  1. Maiara Gouveia
    19 de fevereiro de 2009 at 20:52 Responder

    Ana,

    minha carta-resposta virá outro dia. Por enquanto, eu só te deixo um beijo grande, a ameaça de uma surpresa (que eu espero ser tão boa quanto as suas) e mais carinho. Agora, vou atravessar a ponte, seguir o caminho de volta para casa, depois de 13 horas de trabalho. 13!
    Te gosto muito,
    Mai

  2. Maiara Gouveia
    19 de fevereiro de 2009 at 20:52 Responder

    Ana,

    minha carta-resposta virá outro dia. Por enquanto, eu só te deixo um beijo grande, a ameaça de uma surpresa (que eu espero ser tão boa quanto as suas) e mais carinho. Agora, vou atravessar a ponte, seguir o caminho de volta para casa, depois de 13 horas de trabalho. 13!
    Te gosto muito,
    Mai

  3. gabriella
    21 de dezembro de 2009 at 13:23 Responder

    nao e tao feia nao taaaaaaa

  4. gabriella
    21 de dezembro de 2009 at 13:23 Responder

    nao e tao feia nao taaaaaaa

  5. admin
    22 de dezembro de 2009 at 12:13 Responder

    hehehe, é mais ou menos… depende do dia…
    beijos e brigada

  6. admin
    22 de dezembro de 2009 at 12:13 Responder

    hehehe, é mais ou menos… depende do dia…
    beijos e brigada

  7. diego
    4 de abril de 2010 at 11:35 Responder

    São paulo, cidade não planejada que nos ultimos anos cresceu desordenadamente, favelas , rios poluidos , centro degradado e feio , transito desorganizado , assaltos , violência e desemprego. E muitos outros motivos para morar no interior que eu amo tanto.

  8. diego
    4 de abril de 2010 at 11:35 Responder

    São paulo, cidade não planejada que nos ultimos anos cresceu desordenadamente, favelas , rios poluidos , centro degradado e feio , transito desorganizado , assaltos , violência e desemprego. E muitos outros motivos para morar no interior que eu amo tanto.

  9. yo viviré, para volverlos a encontrar « Corpo Estranho
    18 de março de 2011 at 17:46 Responder

    […] Aqui só há espaços em branco. O contrário seria uma página negra com letras em branco e isso é… […]

  10. yo viviré, para volverlos a encontrar « Corpo Estranho
    18 de março de 2011 at 17:46 Responder

    […] Aqui só há espaços em branco. O contrário seria uma página negra com letras em branco e isso é… […]

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