a bagagem é uma janela

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[ANTES] 5ª edição da Revista Celuzlose no ar!

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Pensar no que irá nas malas é sempre uma atividade de leitura. É imaginar a bússola. Claro que faço bem mais exercícios mentais do que tomo atitudes, dizem isso ser até um mal de poetas. Em verdade, é a grande virtude. E ainda óbvio que ganho em qualquer competição da “menor mala”, a despeito do que possam pensar sobre o excesso de bagagens e mulheres. E cabe tudo, viu? Pior que doida varrida da Mary Poppins.

O essencial da bagagem é o qual livro irá contigo?

Posso fazer uma lista sobre viagens e livros que levei. O interessante é que nem sempre vc lê o tal do livro. É mais um apoio moral, o urso de pelúcia imundo que a criancinha vai arrastando pela rodoviária.

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Nem irei longe. Assim, só levarei poesia, fruto da última visita do Fábio, correios & encomendas, separei:

Esfera – Una Antologia: poemas de Orides Fontela, edição bilíngüe, catalão-português, traduzida pelo querido Joan Navarro, revisão e prefácio do Fábio Aristimunho Vargas. Editora 3i4 (2010)

Autobiography of Red , da Anne Carson (1998), comecei a ler, é bem louca a idéia dela, ainda não atinei exatamente – há elementos em prosa, um narrador, mas só: o resto perde-se em poesia (ou seja, nunca se perde e se perde absolutamente)

Canto desalojado, de Alfredo Fressia. Livro de nosso querido poeta uruguaio, que vive aqui há muito, professor de francês de outros tantos amigos. O livro, cuja capa tem o azul “dos céus de Montevidéu”, foi publicada pela Lumme Editor, organização e tradução do Fábio Aristimunho Vargas.

Lábios-espelhos de Marize Castroeste chegou pelo correio, nossa, gosto demais da poesia da Marize, ela tem uns versos preciosos. Aqui dá para ouvir um pouquinho. Fiquei aguardando esse tempo chegar para abrir o livro…

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Pra vc refazer meus planos imaginários, segue um poema lindo. E as imagens são da artista plástica Néle Azevedo, trabalho feito a partir de poemas da Orides:

Poema Paisagem – Intervenção nas janelas da Biblioteca Adelpha Menezes, bairro do Pari, São Paulo em setembro de 2006.

Atuar nos espaços da cidade pode se assemelhar à construção de torres abstratas e cotidianas. Longas caminhadas pelo Pari possibilitaram tecer laços entre as associações do bairro, os comerciantes, a editora e a biblioteca; entre o dentro e o fora. As janelas da biblioteca Adelpha Figueiredo funcionam, no trabalho, como elo entre interior e exterior. Tornam-se, por um lado, suporte à internalização da paisagem e, por outro, veículo à externalização dos poemas de Orides Fontela e de Paulo Matsushita”.

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Pedra

A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.

(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia.)

O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.

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Pedra

La pedra és transparent:
el silenci es veu
en la seua densitat.

(Clara textura i verb
definitiu i integre
la pedra silencia.)

El verb és transparent:
el silenci el conte
en pura eternitat.

Orides Fontela, na tradução ao catalão de Joan Navarro

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