8 de março. 5 observações sobre flores e 2 poemas

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Adoro Março. É o mês em que a Lebre enlouquece. Estava feliz-feliz ontem. Pelas coisas que escrevi (mesmo as feias, as bregas-sentimentais, as que nos envergonham). Pelas coisas que ainda poderei escrever. Derramamentos de esperança e felicidade.

O curso mulheres-mulheres-mulheres na Casa das Rosas começou empolgante – ao menos para Jeanne e para mim. Conseguir cursar o CLIPE, curso de formação de escritores, também é excelente, precisava muito voltar a ser aluna, esse lugar em que não é necessária tanta segurança, você pode bocejar, xingar a tarefa de casa, se maravilhar com textos que ainda não conhecia, querer saber mais dxs coleguinhas de classe, enfim, ter um espaço-tempo para procurar as chaves que terminarão o próximo romance. Estava feliz pelo meu cão (mesmo que esteja com dor nas costas), pela minha casa, por poder tomar cerveja.

Entretanto, sendo feminista, existe toda uma tensão pré-oito-de-março. É bem nesta época que muito lodo sobe à tona, muita história obscura nova vem dizer “olá, lide comigo”. Como se trata de um mês que fortalece a luta pelos direitos da mulher, meu índice-pessoal-de-escutar-novas-denúncias sobe vertiginosamente. Imagino que deva ocorrer algo semelhante (ou ocorria) com a militância LGBT com a proximidade da Parada. E isso sempre nos rapta aquele pouquinho da felicidade de existir.

Em paralelo, a Renata Corrêa pediu para escrevermos sobre flores hoje. É fato conhecido que algumas feministas consideram agressão supermercados e canalhas darem flores pras mulheres no oito de março. Dê desconto de 70% nas cervejas e eu estaria muito mais satisfeita. Doeu o pedido, mas crescer também dói, como diria a Fran. Daí meus centavos são esses abaixo. São cinco parágrafos desconexos e dois poemas.

[a] Flores são mesmo difíceis. É o velho jogo da historinha do felizes-para-sempre. Eu, por exemplo, nunca ganhei flores na acepção clássica do termo. Ou o buquê era lindo e imenso demais, daí não sabia o que fazer com ele, desajeitada. Ou eram flores largadas na rua num resgate de afeto, daí era tão bonita a situação que só consegui fazer um poema sentimental (que depois virou material para apostila pré-vestibular e alunxs de Taubaté me mandavam e-mail pedindo a solução das perguntas, veja onde os buquês vão parar…). E não tenha nenhum dó, ganho coisas fenomenais, entre materiais e imateriais. O lance mesmo é a “questão flor”. Poderia dizer exageradamente que virar adulta também foi aprender a comprar flores eu-mesma para minha própria casa. Invariavelmente lembro daquela revoltinha pálida e mimada de Mrs. Dalloway, com a qual me identifico tanto: Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself.

[b] Uma vez, vi algo estupendo no metrô, estação Consolação. Antes ainda de existir quela interligação horrorosa entre a linha verde e amarela que provoca a diária e idiota marcha dos pinguins de usuárixs. Vi um homem portando um buquê imenso de rosas vermelhas. Subia a escada rolante. Escada gigantesca. Em câmera lenta. Vi outros homens vendo o homem. Vi mulheres magnetizadas. Vi crianças, quase apontando com o dedinho em riste o buquê. Vi mesmo dois adolescentes rindo daquilo. Vi os guardas do metrô esquecidos de sua tarefa com a cena. Vi que até as propagandas do cursinho para concursos olhavam pro cara. O que enxergavam? O que queriam ver? Fiz outro poema. Esse teve a sorte (ainda) de não se tornar material didático.

[c] O tema flores no oito de março é mesmo odioso. É quase o cala-boca-não-era-isso-que-vc-queria? Não é o que as mulheres querem? Aliás, o que querem as mulheres? Um querido amigo disse num desabafo esses dias: “dane-se, vou entregar flores para as mulheres que admiro e pronto”. Acho justo. É a forma de fazer a homenagem e saber que pode ser xingado. Flores representam o foi-mal-aê. A desculpinha esfarrapada. É uma maneira de subestimar tua inteligência ao julgar. Dando flor, tudo fica bem. Ou não.

[d] De minha parte, não quero flor nenhuma. Queria só ficar feliz-feliz e não saber de novíssimas histórias horrorosas no domingo pela manhã. Lamber meus escritos contentes. Não ter que parar os planos de escrita domingueira pra responder à Rê (que admiro tanto). E se você acha tudo difícil demais, saiba que é da vida em geral, não somente das questões de floricultura. Pior é que corro o risco de ganhar a rosa ainda hoje. A ver que pasa.

[e] Sobre a malfadada rosa de hoje, o único conselho que dou é: a zueira nunca acaba. Mas o amor sim. A paciência então…

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poemas mencionados:

 

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